Memória
"Adeptos do eixo nazifascista ainda existem na diplomacia brasileira. O que me deixa indignado é que alguém como o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que teve a coragem de dizer que a Alemanha e o Japão estão excluídos do Conselho de Segurança da ONU por terem tido a ousadia de desafiar a liderança anglo-saxônica do mundo (Mundo, 6/12), seja ministro de Assuntos Estratégicos do Brasil.
Em memória dos milhões de mortos da Segunda Guerra, fica aqui o meu protesto."
ALBERTO GOLDMAN , vice-governador de São Paulo (São Paulo, SP) - carta publicada na Folha de São Paulo em 15 de dezembro de 2009.
A reação de Goldman seguiu-se à declaração do Ministro, publicada na Folha de 6 de dezembro,em matéria de Claudia Antunes reproduzida abaixo. A frase sobre Alemanha e Japão, que omite o caráter totalitário e os crimes contra a humanidade do Eixo, cabe na perspectiva relativista que "naturaliza" fatos históricos cujos detalhes são pouco conhecidos pelo público.
Ministro cobra desarme de países atômicos
O ministro de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, elogiou e aprofundou a declaração feita na quinta-feira, na Alemanha, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que as potências atômicas precisam se desarmar para ter "autoridade moral" para cobrar o desarme de países como o Irã.
"O controle da situação militar [no mundo] exige o desarmamento dos países nucleares, não o desarmamento dos desarmados, que não colocam nenhum país em risco. O não desarmamento dos países nucleares é que leva à proliferação, porque os países que se sentem ameaçados sabem que eventualmente não serão atacados se estiverem armados", afirmou o ex-secretário-geral do Itamaraty.
"Fico feliz porque escrevi isso antes das declarações do presidente Lula", disse, antes de comentar: "A Coreia do Norte não tem o destino do Iraque porque tem a bomba".
Guimarães encerrou na noite de anteontem, no Rio, conferência do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Itamaraty -entidade de cuja direção foi afastado em 2001, no governo de Fernando Henrique Cardoso, por atacar eventual ingresso do Brasil na Alca (Área de Livre Comércio das Américas).
Conhecido pela oposição ao sistema internacional criado sob a hegemonia dos EUA, o ministro fez afirmações que qualificou de "heterodoxas" ao analisar as "três crises internacionais" -econômica, ambiental e de governança- e sua relação com "quatro tendências": globalização, multipolarização, normatização e transformações tecnológicas. Ele descreveu esforços das potências ocidentais para aprofundar, no pós-Guerra Fria, as normas pelas quais concentram poder. Disse que os acordos de não proliferação "garantiram privilégios a certos Estados", que tentam ampliá-los. "Também não querem que os países não armados tenham armas convencionais. Facilita muito, não é?"
Citou as visitas recentes dos presidentes do Irã, de Israel e da Autoridade Nacional Palestina e ironizou os que criticaram a vinda de Mahmoud Ahmadinejad. "Alguns queriam que nós pedíssemos licença, mas não pediram para o presidente de Israel, aí não precisava, não é?"
Guimarães defendeu a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com a inclusão de Brasil, Índia, africanos e as potências do Eixo nazifascista derrotadas na Segunda Guerra, Alemanha e Japão, "depois de tantos anos de purgatório, de punição, por terem desafiado a liderança anglo-saxônica do mundo" (grifo meu).
Segundo ele, o Brasil está em boa posição nas negociações sobre mudança climática por sua matriz energética limpa e pela decisão de adotar metas voluntárias de redução das emissões. O aquecimento global, afirmou, decorre da visão de que "o indivíduo pode consumir o que bem entende, e o produtor produzir o que bem entende", num mundo de recursos naturais que "seriam inesgotáveis", o que levou ao uso intensivo de combustíveis fósseis pelos países desenvolvidos.
A mesma visão pressupunha que os demais Estados "não poderiam chegar ao mesmo nível de consumo". A pregação do desenvolvimento sustentável, disse, surgiu nesse contexto: "Nunca [...] defenderam o crescimento sustentável para os países desenvolvidos, sempre para os subdesenvolvidos. Fica até de mau gosto dizer isso. Mas é a verdade."
Para Guimarães, países como Brasil, Índia e Rússia não são "absorvíveis" pelos três polos em torno de Estados Unidos, União Europeia e China. "Temos a sorte", disse, de poder formar um polo na América do Sul, "base central da política externa brasileira".
O ministro avaliou que o Brasil está em geral bem posicionado diante dos desafios internacionais, com uma exceção importante: inovação tecnológica. Comparou o investimento anual dos EUA em pesquisa, de US$ 300 bilhões, com o brasileiro, de US$ 15 bilhões.
"Se não fizermos avanços, estaremos num patamar inferior de competitividade em termos econômicos, políticos e militares." (Claudia Antunes)
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17.12.09
2.8.09
Presenças e ausências no Itamaraty

Robi Damelin, membro do Círculo de Pais, Fórum das Famílias
Ao fim do Seminário Internacional de Mídia sobre a Paz no Oriente Médio("Promovendo o diálogo israelense-palestino - um ponto de vista sul-americano"), em 27 e 28 de julho no Rio, ficou claro que é longo o caminho a ser percorrido. Até os cisnes do Itamaraty sabem que o intrincado xadrez geopolítico da região passa longe da influência da mídia, motivo do Seminário... Mas foi enriquecedora a troca de opiniões no evento, organizado pelas Nações Unidas, e os discursos do Ministro do Exterior Celso Amorim e do assessor para assuntos internacionais do Presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, foram convergentes e moderados (como convém a um país em campanha por um lugar no Conselho de Segurança da ONU).
A relevância de palavras e de imagens sobre corações e mentes, especialmente no tocante a situações que mexem com o imaginário étnico-religioso, os direitos humanos e o sofrimento de civis, consolidou-se com o fecho perfeito para o Seminário: a apresentação de duas pequenas versões do premiado e comovente documentário Ponto de Encontro, co-dirigido pela brasileira Julia Bacha e por Ronit Avni. Estiveram no Rio dois de seus protagonistas, a israelense Robi Damelin e o palestino Ali Abu Awwad, ambos membros do Círculo de Pais – Fórum das Famílias, grupo que reúne cerca de 500 famílias enlutadas dos dois lados.
O documentário mostra como cidadãos comuns se levantam das cinzas da dor mais profunda para buscar vias de reconciliação em vez de ceder aos clamores por vingança (David, filho de Robi, fo morto por um franco-atirador palestino; o irmão mais velho de Awwad foi morto por um israelense)e às palavras de ordem políticas. Ela, que um dia emigrou da África do Sul para Israel, percorre, sempre com um parceiro palestino, comunidades e escolas do seu país e dos teritórios ocupados, e também viaja pelo mundo, pregando a necessidade de mediação e paz (veja mais em http://www.justvision.org/)
A relevância de palavras e de imagens sobre corações e mentes, especialmente no tocante a situações que mexem com o imaginário étnico-religioso, os direitos humanos e o sofrimento de civis, consolidou-se com o fecho perfeito para o Seminário: a apresentação de duas pequenas versões do premiado e comovente documentário Ponto de Encontro, co-dirigido pela brasileira Julia Bacha e por Ronit Avni. Estiveram no Rio dois de seus protagonistas, a israelense Robi Damelin e o palestino Ali Abu Awwad, ambos membros do Círculo de Pais – Fórum das Famílias, grupo que reúne cerca de 500 famílias enlutadas dos dois lados.
O documentário mostra como cidadãos comuns se levantam das cinzas da dor mais profunda para buscar vias de reconciliação em vez de ceder aos clamores por vingança (David, filho de Robi, fo morto por um franco-atirador palestino; o irmão mais velho de Awwad foi morto por um israelense)e às palavras de ordem políticas. Ela, que um dia emigrou da África do Sul para Israel, percorre, sempre com um parceiro palestino, comunidades e escolas do seu país e dos teritórios ocupados, e também viaja pelo mundo, pregando a necessidade de mediação e paz (veja mais em http://www.justvision.org/)

No mais, não houve (nem se esperava) consenso. A ausência do prefeito de Gaza, à última hora impedido de viajar ao Rio, foi lamentada pelos israelenses, que tinham planejado discutir com ele vários pontos de projetos sanitários já prontos e com recursos alocados. Os projetos não foram implantados devido ao boicote do Hamas, informou o prefeito de Ashkelon – e esse tipo de informação dividiu a platéia, microcosmo da polarização que o tema Israel-Palestina produz.
A maioria dos judeus presentes vibrou quando Yacov Achmer, do Canal 1 da TV israelense e especialista em assuntos internacionais, criticou as exigências palestinas, alegando que elas mudam à medida que Israel faz concessões. Depois de perguntar que Palestina a OLP queria libertar antes de 1967, ironizou a suposta neutralidade jornalística, declarando-se, nessa ordem, judeu, israelense e jornalista.
Já a esquerda e os árabes aplaudiram Gideon Levy, colunista do jornal israelense Haaretz, para o qual nenhuma negociação irá adiante sem a retirada de Israel dos assentamentos e o fim de políticas humilhantes (como os postos de controle). Levy afirmou que a ocupação não teria se mantido sem a colaboração da mídia de seu país, “que está inteiramente a serviço do governo”.
Diante do argumento de que a mídia israelense é ideologicamente plural, divulgando todo tipo de avanço comportamental e escândalo governamental (inclusive escapadas sexuais de ministros), Levy apontou que quando se trata de segurança nacional e de árabes ela torna-se caudatária das posições oficiais e reforça percepções. Deu um exemplo recente: numa mesma edição um grande jornal divulgou com destaque, e foto na primeira página, a história da morte do cachorro de estimação de um soldado israelense e jogou para a página 14 a morte de palestinos numa incursão militar de Israel.
É claro que nenhum palestino morador de Gaza faria, sob risco de represálias, esse tipo de autocrítica impiedosa! Foi com palavras cautelosas, pois, que alguns participantes garantiram que sua mídia não pertence ao Hamas, não quer o Hamas... mas convive com o Hamas. Portanto, nada de discutir censura: eles e elas ressaltaram a questão dos refugiados e de Jerusalém, reclamaram da existência de 11 mil prisioneiros palestinos em Israel e protestaram contra sua falta de liberdade de movimentos e o estrangulamento econômico de sua população civil.
Na contextualização reside um dos nós da informação sobre o Oriente Médio. Como explicar certas peculiaridades da região ao público, sobretudo na América Latina? Como discutir fotografias de crianças mortas por bombas? Andrew Whitley, diretor do escritório da UNRWA (Relief Works Agency for Palestinians) levantou questões como essa. Para ele, a mídia deveria olhar mais “sob a superfície” ao reportar o conflito, já que a reiteração de estereótipos não serve ao interesse de ninguém e deslegitima o outro. Daí a importância de todas as pontes, mesmo pequenas, como as que esse Seminário estabeleceu entre interlocutores tão variados (israelenses, árabes, brasileiros, argentinos, egípcios, norte-americanos).
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