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12.9.10

Fidel, judeus e antissemitismo


Em entrevista a Jeffrey Goldberg, da Atlantic Magazine, que está correndo o mundo, Fidel Castro afirmou que o modelo cubano "não funciona mais" para exportação (depois ele disse que sua frase foi irônica...). Para os judeus, ele deu mostras de grande simpatia, falando de maneira enfática contra o antissemitismo e a negação do Holocausto por Ahmadinejad. A matéria saiu hoje na Folha de São Paulo (só para assinantes,  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il1209201005.htm ).

Abaixo, o trecho sobre antissemitismo e Ahmadinejad (by Jeffrey Goldberg, tradução Paulo Migliacci).


Fidel Castro, 84 anos, convidou a dirigente da Comunidade Judaica Cubana, Adela Dworin, a participar
da visita em que acompanhou o jornalista norte-americano Jeffrey Goldberg ao Aquário de Havana (onde
trabalha, como veterniária, Celia Guevara, filha do Che) 



















" Fidel deu início ao nosso primeiro encontro me contando que lera com atenção meu recente artigo para a "Atlantic", e que o texto confirmava que EUA e Israel se encaminham de forma acelerada e gratuita a um confronto com o Irã. A interpretação não surpreende, claro: Fidel é o avô do antiamericanismo no mundo inteiro, sempre foi um severo crítico de Israel.

Seu recado ao premiê israelense Benjamin Netanyahu era simples: Israel só terá segurança se abrir mão de seu arsenal nuclear, e as demais potências nucleares do mundo também só estarão seguras caso abram mão dessas armas. O desarmamento nuclear mundial e simultâneo é decerto uma meta nobre, mas, em curto prazo, não se pode defini-la como realista.

A mensagem de Fidel a Mahmoud Ahmadinejad, o presidente do Irã, não era tão abstrata, no entanto. Nessa primeira conversa, que durou cinco horas, Fidel retomou repetidas vezes suas críticas ao antissemitismo. Criticou Ahmadinejad por negar o Holocausto e explicou por que o governo iraniano serviria melhor à causa da paz caso reconhecesse a história "única" do antissemitismo e tentasse compreender por que os israelenses temem por sua existência.


Ele abriu essa discussão descrevendo seus primeiros contatos pessoais com o antissemitismo, quando era criança. "Lembro de quando era menino, muito tempo atrás, com cinco ou seis anos de idade, e morava no interior", disse. "Lembro da Sexta-Feira Santa. A atmosfera que uma criança respirava naquele dia era a de 'Silêncio, Deus morreu'. Deus morria todo ano, entre a quinta e o sábado da Semana Santa, e deixava todos muito impressionados. O que havia acontecido? E as pessoas respondiam que 'os judeus mataram Deus'. Atribuíam aos judeus a culpa pela morte de Deus! Percebe como era?"


Prosseguiu: "Bem, eu não sabia o que era um judeu; conhecia um pássaro que era chamado de 'judía', e para mim judeus eram aqueles pássaros. Eram aves de bico longo. Não sei por que tinham esse nome. É o que me lembro. Era esse o nível de ignorância da população inteira".


DIFAMAÇÃO Fidel afirmou que o governo iraniano deveria compreender as consequências do antissemitismo teológico. "Isso durou por talvez 2 mil anos", disse. "Não acredito que alguém tenha sido mais difamado que os judeus. Eu diria que foram muito mais difamados que os muçulmanos. Sofreram mais difamação do que os muçulmanos porque foram culpados e difamados por tudo. Ninguém culpa os muçulmanos por coisa nenhuma."


O governo iraniano deveria compreender que os judeus "foram expulsos de sua terra, perseguidos e maltratados no mundo inteiro, porque eram vistos como responsáveis pela morte de Deus. Na minha opinião, foi isso que aconteceu a eles: seleção reversa. E o que é seleção reversa? Ao longo de 2 mil anos, foram sujeitos a terríveis perseguições e 'pogroms'. Seria de presumir que desaparecessem; creio que sua cultura e religião os mantiveram unidos como nação". E prosseguiu: "Os judeus viveram uma existência muito mais difícil que a nossa. Nada se compara ao Holocausto". Pergunto se diria a Ahmadinejad o que estava me dizendo. "Estou dizendo o que digo para que você divulgue", respondeu ele.


Fidel continuou, analisando o conflito entre Israel e Irã. Disse compreender os temores iranianos de agressão pelos israelenses e americanos, e acrescentou que, em sua opinião, as sanções dos EUA e as ameaças de Israel não dissuadirão a liderança iraniana de sua busca por armas nucleares. "O problema não vai ser resolvido, porque os iranianos não vão recuar diante de ameaças externas. É essa minha opinião", disse.


Em seguida apontou que, diferentemente de Cuba, o Irã "é um país profundamente religioso", e disse que líderes religiosos são menos propensos a compromissos. Enfatizou que até mesmo a laica Cuba resistiu a variadas exigências americanas ao longo dos últimos 50 anos".

30.8.10

Banqueiro alemão incendeia debate sobre imigração com tiradas "racistas"

(por Gonçalo Venâncio, em 30 de Agosto de 2010)

"Todos os judeus partilham um gene comum. E isso faz deles pessoas diferentes das outras." Estas afirmações incendiárias de Thilo Sarrazin, ontem numa entrevista ao "Welt am Sonntag", marcam o regresso do fantasma do racismo à política alemã e em particular ao debate sobre a imigração. Membro do conselho executivo do Banco Central alemão e antigo ministro das Finanças de Berlim, Sarrazin tem a cabeça a prémio depois de todos os partidos alemães terem exigido a sua demissão do Bundesbank.

A chanceler Angela Merkel deu voz à condenação generalizada dizendo que as considerações de Sarrazin são "difamatórias". Guido Westerwelle, ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente do FDP - parceiro "júnior" na coligação com a CDU de Merkel -, admite que todas as afirmações que "promovam o racismo ou o anti-semitismo não têm lugar no discurso político" germânico. Também Os Verdes não hesitam em dizer que Sarrazin "prejudica a imagem do banco" e "incita ao ódio" enquanto o SPD, partido de Sarrazin, lida com o incómodo acenando com a hipótese de expulsão. "Se o senhor Sarrazin não abandonar o partido de forma voluntária, vamos iniciar o procedimento de expulsão", disse à "Spiegel" Christian Gaebler.

Apesar da indignação, a verdade é que as palavras de Sarrazin não apanharam ninguém desprevenido. Aos 65 anos, o veterano político alemão tem um currículo extenso de tiradas racistas, especialmente quando o tema é a imigração. Aliás, Sarrazin prepara- -se para justificar os seus argumentos num polémico livro chamado "A Alemanha em Queda". Resumindo o argumento, Sarrazin defende que os imigrantes muçulmanos são menos inteligentes, vivem às custas do Estado e como têm muito mais filhos que os alemães podem tornar-se maioritários absorvendo o país.

Críticas que levaram o presidente da Federação Turca da Alemanha, Kenan Kolat, a pedir a demissão do responsável pelo departamento de controlo de risco do Bundesbank: "É o clímax do novo racismo intelectual e prejudica a imagem da Alemanha", sustenta Kolat. Naturalmente, também o grupo Conselho de Judeus na Alemanha repudia as palavras e argumentos "genéticos" de Sarrazin.

Em Outubro de 2009, Thilo Sarrazin mostrou pela primeira vez ao que vinha. Numa entrevista polémica, disse que 20% da população de Berlim era economicamente dispensável. "Uma grande parte de árabes e turcos nesta cidade, cujo número cresceu devido às políticas erradas, não tem qualquer função produtiva para além de vender fruta e vegetais." No ano passado, Sarrazin escapou à demissão. Agora, tudo aponta para que tenha menos sorte.

13.7.10

Um Bibliotecário Escravo - de Paulo Blank *

Sentados ao redor da mesa de jantar e deixando o pensamento vagar por diferentes assuntos, os amigos aproveitavam a noite fresca da casa em Botafogo quando alguém, achando a conversa um tanto vadia, infiltrou uma palavra-bomba disfarçada de pergunta inocente. Permaneci calado e fingi que não era comigo. Existem assuntos que, na minha idade, evito discutir. Sem considerar o meu silêncio, uma delas correu atrás do meu olhar e quando o encontrou disse cheia de certeza que, em definitivo, entendeu o problema palestino depois de ter assistido “Nossa Música”, um filme do Godard. Segundo concluiu de um diálogo do filme, a razão de tudo era a falta de poetas em Israel. Dito isto calou-se à espera da minha reação.

Entretido com a sobremesa e com a taça de um saboroso Tokai que o anfitrião compartilhava conosco, levantei o olhar da torta alemã e respondi que aquilo não era pergunta, era resposta. Pensando em voltar a me ocupar do  néctar reluzindo na taça de cristal, dei,inutilmente, a pergunta por respondida.Nem bem retomei a trajetória do garfo em direção à torta quando fui impedido de prosseguir no meu gesto por uma explosão que encheu a noite de gritarias que não pararam mais. Palavras como sionismo e nazismo eram pitéus saboreados com raro prazer apesar da sobremesa tão elogiada. Um dos presentes, antropólogo recém chegado do estrangeiro, quando foi possível, comentou que em suas viagens pelo mundo cansou de ver este assunto, o conflito Israel e palestinos, tirar do sério muitos intelectuais de renome, tornando-os incapazes de qualquer julgamento equilibrado. Coisa que considerei normal.

Em plenos anos dourados, eu era um garoto que brincava carnaval no bloco do sujo e corria com a meninada sobre o chão de pé de moleque na vila em que vivíamos na Rua de Sant’Anna da Praça Onze. Ali, bem no centro do Rio, volta e meia me perguntavam por que não me benzia quando passava um enterro. Quando a minha mãe, judia polonesa que fugiu de sua querida Varsóvia em julho de 1939, me flagrou tentando dar uma resposta à pergunta persistente, vaticinou com ar de quem conhecia aquela prova: “Não adianta, eles não vão te entender”.

Quando ela usava a palavra “entender” eu já sabia que ela estava me dizendo que existem situações onde a razão não funciona. O ouvinte, prisioneiro de alguma crença, não consegue alcançar o entendimento do outro. O outro deixa de fazer diferença, faça ele o que fizer. Talvez tenha sido por isso que a Sarita,uma amiguinha da vila e muito mais inocente do que eu, quando quis aderir à malhação do Judas, foi afastada por ser judia e assassina de Deus. Enquanto isto, respaldado na sabedoria materna, eu só saia de casa no sábado de Aleluia depois de ver o fantoche de pano abandonado bem em frente da nossa porta para acabar de arder. Quando as labaredas terminavam e os ânimos se acalmavam, eu voltava à brincadeira na rua passando por cima das cinzas que a mãe varreria no abrigo da noite.

Hoje, teimando em desobedecer à Dona Malka, me pego pensando se as crianças da vila de Sant’Anna não estariam dramatizando um ritual onde acusavam e puniam os judeus pelo crime de matar um Deus que, isso ninguém lhes contava, era tão judeu quanto Judas? Submetendo Judas às pauladas e ao fogo, repetiam o que no passado foi feito aos judeus vingando o assassinato de Deus. Trabalho mental e cultural onde as palavras precisam denunciar e disfarçar com a ajuda de jogos e ritos o mesmo ódio que a qualquer hora pode explodir na mente de pessoas equilibradas. Como aconteceu na Europa culta e racionalista na segunda guerra mundial.

Será que o Ocidente conseguirá um dia desfazer a judaização do judeu enquanto sinônimo de maldade? A palavra judiar não desvela uma cultura que fundiu maldade-satanás-judaísmo numa cadeia de significações cravada no seu mundo mental e afetivo? No Pessach os judeus não costumavam raptar um menino cristão e assassiná-lo com os mesmo suplícios do Deus-menino-Jesus? Na sexta feira da paixão de Cristo, quando depois dos sermões o povo invadia o bairro judeu para vingar com sangue e fogo o eterno morrer e ressuscitar de Jesus, o que faziam não era tornar real o drama encenado na vila de Sant’Anna? Não foi Santo Agostinho que, a propósito de Jesus e os Judeus, ensinou que estes “coroaram-no de espinhos, aviltaram-no cuspindo-lhe na face, flagelaram-no, transpassaram-no com uma lança” acrescentando que, com “na sua dispersão e sua desgraça são um povo testemunha do demônio e da verdade cristã, subsistem para a salvação da nação cristã, mas não para a própria”. Foi assim que ele criou a doutrina do Povo Testemunha.

Os Judeus deveriam sofrer sem ser destruídos para validar permanentemente a verdade da Igreja. Mas, ao ditar esta razão, aceita, difundida e aprimorada ao longo dos séculos, sem perceber, Agostinho equiparava o suplício dos judeus ao sofrimento do Jesus que eles reviviam em seus corpos submetidos à dor. Agostinho, o grande pensador católico, também desenvolveu outra doutrina que se tornou importante na historia das relações da igreja com os de Israel. Segundo aquela doutrina eles seriam o “Bibliotecário Escravo” carregador das antigas Escrituras para provar que estas caducaram na medida em que o filho mais novo triunfara sobre o mais velho.

Diante de tal imaginário cultural quem sou eu para tentar conversar sobre um conflito que arranca as pessoas de seu equilíbrio racional em qualquer lugar do mundo ocidental e cristão?

Bem que a minha mãe me avisou.

( Rio, entre 2007 a 2008 )

Paulo Blank é psicanalista e escritor.

23.6.10

Amsterdam contra o antissemitismo

[ Purim na sinagoga de Amsterdam, 2007 ]

O prefeito de Amsterdam, Lodewijk Asscher, vai colocar nas ruas policiais disfarçados de judeus ortodoxos, para identificar antissemitas que podem se tornar violentos. Segundo notícia do jornal inglês Daily Telegraph, que cita a mídia holandesa, a decisão foi tomada depois que aumentaram os incidentes em que judeus usando quipás têm sido alvo de xingamentos, ameaças e cusparadas. 

Um filme feito recentemente por uma empresa privada judaica mostra jovens fazendo a saudação nazista e gritando com um rabino em distintos pontos da cidade.

A prefeitura não está inovando: policiais holandeses disfarçados/as de prostitutas, homossexuais e idosos já coibem agressões e assaltos em áreas como o distrito da "luz vermelha". 

8.4.10

Alerta na Hungria: extrema-direita antissemita ganha votos

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Pela primeira vez desde a ascensão do nazismo, um grupo abertamente antissemita ganhou ontem número expressivo de votos nas eleições húngaras. O resultado preocupa a Europa: o partido de extrema-direita Jobbik ficou com 16,71% dos votos, entrando pela primeira vez no Parlamento já como a terceira força política do país, logo atrás dos socialistas, há oito anos no poder.

O líder do Jobbik, Gabor Vona, prometeu devolver aos húngaros seu “orgulho nacional e identidade”. O partido cresceu junto com o desemprego, a recessão econômica e as denúncias de corrupção governamental. Por ora, a coalizão de centro-direita Fidesz, que assegurou 206 dos 386 assentos no Parlamento, nega que pretenda integrar o partido a uma coalizão governamental, por considerá-lo uma “ameaça à democracia”.

Os judeus não estão sozinhos como alvo do Jobbik, que anuncia sua disposição de resolver por "meios pacíficos" o “problema dos Roma”, como são chamados os 500 mil ciganos do país, acusados pela extrema-direita de desestabilizar o tecido social.




O Jobbik -- sigla para Movimento por uma Hungria Melhor -- fundou em 2007 a Guarda Magiar, milícia paramilitar depois colocada fora da lei (mas que ainda marcha pelas ruas), cujos adeptos fazem lembrar os grupos que atuavam antes da Segunda Guerra. Vona prometeu usar seu uniforme da Guarda quando tomar posse no Parlamento.

A retórica deles é violenta e delirante. Nas últimas semanas, um boletim publicado por um importante sindicato de policiais aliado do partido informou que “devido à nossa atual situação, o antissemitismo é não só nosso direito, mas é um dever de todos os húngaros que amam sua pátria, e devemos estar preparados para uma batalha armada contra os judeus”. Outro artigo no mesmo boletim defendeu a transferência do “nosso governo sionista” para Tel Aviv, afirmando que em caso de uma guerra civil entre húngaros e ciganos (!!), os "judeus ricos" se aproveitariam para tomar conta do país rapidamente.

Ou seja, não há como negar que o antissemitismo saiu do nicho fechado e vem num crescendo. Quando o economista Gyorgy Suranyi, judeu e ex-presidente do Banco Central, foi apontado como possível  primeiro-ministro, o rosto dele apareceu em charges na mídia tradicional dentro de uma estrela de Davi amarela, reminiscência da usada durante o nazismo. Recentemente, grafites com dizeres contra os judeus apareceram em vários pontos da capital, um memorial do Holocausto foi vandalizado em Zalaegerszeg e neo-nazistas fizeram manifestação na cidade de  Tiszaeszlár, onde um libelo de sangue levou a pogroms em 1882-83.

Numa pesquisa da Anti-Defamation League há um ano, 67% dos entrevistados húngaros concordaram com a afirmação de que “os judeus têm poder demais no mundo dos negócios” e 40% disseram acreditar que “os judeus são mais leais a Israel que à Hungria”.

Uma das candidatas mais conhecidas da extrema-direta, Krisztina Morvai, reagiu a críticas dizendo: “Eu ficaria muito satisfeita se os judeus húngaros, que se dizem tão orgulhosos, voltassem a brincar com aqueles seus rabinhos circuncidados em vez de ficarem me atacando”. E uma revista publicou uma charge de um bispo segurando uma menorá com os dizeres “É isso que você quer?”

21.9.09

Direitos humanos no Brasil (por Jacksohn Grossman*)

O Museu Judaico convida para a mesa-redonda "Direitos humanos - a questão das diferenças" (em 29 de setembro, a partir das 18 horas, no Atlantic Business Center, avenida Atlântica 1130, térreo), com a participação de Benedita da Silva, secretária de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos; Jorge da Silva, secretário executivo da Coordenadoria Multidisciplinar de Estudos e Pesquisas em Ordem Pública, Polícia e Direitos Humanos; e Abraham Goldstein, presidente da B'nai Brith do Brasil. A mediação será do advogado Jacksohn Grossman, diretor do Departamento Jurídico da Fierj, autor do seguinte artigo sobre o tema: 
" O Brasil participou ativamente da redação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela ONU em 1947, sendo então representado pelo jornalista Austregésilo de Athayde. Nem por isso a expressão “direitos humanos”, em nosso país, deixou de apresentar diferentes sentidos, conforme distintos contextos e épocas.
Durante os 20 anos de ditadura militar invocavam-se os direitos humanos em defesa dos perseguidos políticos, em defesa da liberdade de expressão e contra a tortura, as prisões ilegais e a legislação autoritária. Nos dias atuais costuma-se empregá-la para denunciar chacinas em favelas e as condições subhumanas de nossas prisões.

Independentemente dos problemas econômicos e sociais, há um outro aspecto, de cunho ideológico, que vai permear todos os estratos sociais, e que diz respeito à visão do Outro, ou seja, daquele que olhamos e pensamos como “diferente”. Gilberto Freyre, tão festejado sociólogo que teria promovido a defesa da miscigenação de brancos com negros, exaltando-a como marco positivo da criação de uma propalada “democracia racial” no Brasil, deixa claro seu antissemitismo, ao se referir aos judeus como “técnicos de usura” e “aves de rapina”.

Com as recentes descobertas científicas e a decifração do genoma humano, desmoralizou-se a idéia de existência de raças superiores ou inferiores, de diferenças entre raças, e até mesmo o próprio conceito de raça. Nada disso, porém, é bastante para alterar o conceito de “judeu” ou de “negro”, que se acha internalizado pela cultura transmitida por gerações.

Exemplo dessa permanência é a forma como é tratado o judeu no noticiário publicado na imprensa. Com efeito, quaisquer notícias, tanto elogiosas, quanto, principalmente, as detratoras, envolvendo algum cidadão judeu, recebe não apenas este qualificativo, mas também, por vezes, o registro de que seria “estrangeiro”. Assim, “fulano de tal, médico judeu radicado nos Estados Unidos, ...”, ou, “comerciante judeu há muitos anos no Brasil, foi ontem assaltado e morto durante violento tiroteio”. O mesmo tratamento não é atribuído aos católicos, protestantes, budistas ou espíritas, quer sejam eslavos, asiáticos ou europeus.

A expressão “isto é coisa de judeu”, “você parece judeu”, ou até mesmo “você não parece judeu”, é ainda bastante utilizada, em todas as classes e níveis de instrução, não apenas de forma pejorativa e preconceituosa, mas também como se o judeu possuísse características próprias e diversas dos demais cidadãos, percebíveis a olho nu ou identificáveis pelo simples modo de ser ou de agir.

O histórico de casos, em nossa experiência de mais de duas décadas no trato das questões jurídicas trazidas ao conhecimento da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, demonstra que a prática do racismo e do antissemitismo vem ocorrendo não apenas de forma persistente, mas em volume cada vez maior. Exemplos notórios são as publicações de obras de nítido caráter nazista, artigos em jornais e revistas, entrevistas nos diversos meios de comunicação, venda de objetos com o símbolo do nazismo, desenhos de suásticas em colégios, universidades, repartições, meios de transporte, bandeiras de torcidas, decoração de restaurantes, etc.

Num curso de pós-graduação aqui no Rio de Janeiro, na cadeira “Alternativas para Produção Científica em Relações Internacionais”, há cerca de um ano e meio, a professora e então diretora do Curso declarou em sala de aula que “Hitler deveria ter matado todos os judeus”. Na internet multiplicam-se os sites nazistas, as comunidades no Orkut, dentre elas “Poder Branco”, “Comunidade Adolf Hitler BR”, com 761 membros, “Comunidade Hitler”, com 486 membros, e “Comunidade Hitler Mein Kampf, com 1009 membros. Há ainda a pregação feita pelos que se autodenominam “revisionistas históricos” no tocante ao Holocausto, sem contar o ódio manifestado em cartas de leitores nos jornais e sites de notícias on line, que, a pretexto de atacar Israel, pretendem na verdade demonstrar que os judeus são poderosos, opressores, amantes da guerra e da violência e dominadores dos meios de comunicação.

Quanto ao judeu, não importa se professa ou não a religião judaica, se é judeu apenas por origem ou porque assim se declara: esses dados não são considerados para vê-lo como um “diferente”, que tem uma marca própria, diversa da maioria, sujeito a um outro olhar."
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* Este artigo é um resumo da palestra do autor na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, no evento “Presença Judaica na Cultura Brasileira”, realizado pela UNIRIO e o Memorial Judaico de Vassouras.

31.7.09

Um filósofo contra o monopólio da verdade


O filósofo argentino Dario Sztajnszrajber, professor do Seminário Rabínico de Buenos Aires, é o organizador do recém-lançado livro Posjudaismo 2 ( http://www.prometeolibros.com/), edição de uma série de encontros em que pensadores (inclusive o brasileiro Bernardo Sorj) analisam a realidade do judaísmo em seu país, expondo dilemas que não necessariamente levam a respostas imediatas.

O pós-judaísmo, diz Darío, é também um convite ao debate, às indagações: o que nos dizem os Dez Mandamentos aqui e agora, na Argentina (e no mundo) do século XXI? – é uma dessas indagações. Quem tem o poder de dizer quem é judeu? -- é outra. Subjacentes às perguntas estão o respeito à diversidade e a oposição à exclusividade do saber que certos grupos judaicos clamam ter.

Ainda que o livro não trate especialmente de antissemitismo, enviei ao filósofo uma pergunta sobre o assunto, em razão da manifestação violenta (com alguns feridos) contra o ato público da comunidade judaica e da Embaixada de Israel em homenagem às vítimas do atentado da AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), em Buenos Aires, que completou 15 anos em julho. Dario não pensa que o antissemitismo seja atualmente um risco maior na Argentina, pois a sociedade está atenta. O que existe lá, diz, são grupos minúsculos mas estridentes, de postura discriminatória, que transferem à comunidade judaica sua oposição à política do governo israelense e tendem a reiterar a eterna “incorreção” dos judeus.

Ademais, acrescenta, a atenção da mídia alenta a tendência a exigir dos judeus uma conduta exemplar. “Creio que o maior antissemitismo está colocado nessa exigência. A Israel se exige o que não se exige a nenhum outro país”.

Ma, afinal, em que lado do espectro ideológico estão esses grupos? (na manifestação violenta de julho, a maioria dos manifestantes parecia ser do Quebracho, grupo de programa bastante confuso mas idenficado com de extrema-esquerda por um tipo de discurso genérico anti-EUA, anti-Israel, pró-Chavez).

Diz Darío:

“A confusão ideológica, acredito, mostra a crise tanto do discurso das esquerdas como dos discursos das instituições judaicas centrais. A esquerda tornou-se uma denominação esvaziada de ideologia, pois alberga posturas que vão desde o fascismo até o trotsquismo, ou desde a defesa das minorias até o apoio a regimes teocráticos. A isso se soma a crise da prática política dos movimentos de esquerda, que não conseguiram ressignificar-se para que as lutas humanistas e contra as desigualdades tenham novas formas de chegar às pessoas.

Hoje, ser de esquerda deveria consistir numa luta militante contra todo tipo de discriminação, qualquer que seja o país. O grande setor excluído atualmente são os grandes movimentos de ilegais, cuja situação em qualquer sociedade emerge de um mundo socialmente injusto (...)

Mas a resposta das instituições judaicas centrais frente a isso é colocar toda a esquerda sob o mesmo teto e acusar “a” esquerda de ser judeofóbica. Acho que não é um erro, mas uma política, pois há muitas posições no interior da comunidade que legitimam um modelo excludente. O que deve ficar claro é que não há uma ideologia judaica única, monopólica, verdadeira, sobre nenhum tema!”



Atentado impune e outros apontamentos

Logo depois do atentado à AMIA, o presidente Carlos Menem manifestou seu pesar aos israelenses – que responderam que eles é que lhe deviam condolências, afinal os 85 mortos e 300 feridos eram em sua maioria argentinos... inclusive pedestres que naquela manhã de inverno (18 de julho de 1994) estavam perto do prédio de oito andares, no centro de Buenos Aires, derrubado por 300 quilos de explosivos.

O atentado – o mais letal contra uma comunidade judaica desde a Segunda Guerra – foi um choque não só para os judeus, apesar do alvo ter sido a sede de várias de suas instituições culturais e sociais, inclusive a entidade-mãe Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), além de uma das maiores bibliotecas em hebraico da América Latina e uma das maiores do mundo com obras em ídish (parcialmente recuperadas dos escombros, nas semanas seguintes, por voluntários). A explosão ocorreu apenas dois anos depois que outra, também impune até hoje, deixou 22 mortos na embaixada de Israel em Buenos Aires.

Ambos os atentados foram desde então atribuídos por distintos governos argentinos a um inalcançável “terrorismo internacional” (regimes iraniano e/ou sírio, Hezbolá); as conexões locais continuaram a salvo, apesar dos protestos de familiares de vítimas e da mídia. Ainda que os ataques tivessem mais relações com a ação de máfias criminosas e disputas entre complexas redes de interesses internacionais do que com a persistência do antissemitismo, a comunidade judaica argentina ficou mais preocupada depois deles e passou a adotar extremas medidas de segurança em todas as suas instituições.

A explosão na embaixada, em 17 de março de 1992, ocorreu num horário em que toda a segurança se ausentara do local. Mas o então ministro do Interior José Luis Manzano apressou-se a informar que fora causada por um arsenal guardado dentro da própria representação diplomática, acrescentando que havia indícios da existência de um plano israelense para colonizar o sul do país. Ele não estava sendo original: para ficar num exemplo, em 1971 um conhecido professor de Direito denunciara o “Plan Andinia”, suposta conspiração judaica mundial para apoderar-se da...Patagônia!

O imaginário em torno da conspiração judaica e o antissemitismo na Argentina foram influenciados diretamente pelo nazismo e o fascismo europeus, e foram apoiados por grupos da direita católica. Organizações como a Liga Patriótica e a Aliança Libertadora Nacionalista e dezenas de publicações conclamavam à “resistência” contra os judeus, ora apontados como sugadores das riquezas nacionais ora como fomentadores do comunismo. O governo militar que assumiu o poder em 1943 restabeleceu a educação religiosa (católica) nas escolas públicas, pondo fim ao laicismo estabelecido em 1884. Em 1948, Evita acusou os antissemitas de serem “representantes nefastos da oligarquia”, mas o discurso nada significou na prática: Perón já abrira as portas, ao final da Segunda Guerra, a centenas de criminosos de guerra nazistas.

A partir da década de 1960, grupos como Tacuara e Guarda Restauradora Nacionalista atuaram livremente tanto nos períodos de democracia quanto na ditadura. Houve dezenas de ataques contra judeus nos anos seguintes. Uma jovem judia foi morta sob a “acusação” de ter ajudado o Mossad no sequestro de Adolf Eichman. Em agosto de 1960, membros da Tacuara atiraram num adolescente judeu. Um editorial do semanário Mundo Israelita queixou-se então: “A polícia nunca os encontra, nunca os pune. Sabe quem são, quem os comanda, onde estão. Eles não escondem suas intenções, mas ninguém os incomoda (...)”.

Se nos pequenos detalhes encontram-se sinais reveladores, um deles foi o fato de que nos anúncios fúnebres nos jornais argentinos, a estrela de Davi só pôde ser exibida depois de 1986, quando se revogou uma disposição oficial que a proibia.

Em 1998, quando um Congresso Neonazista reuniu-se no Colégio Lasalle, a comunidade judaica se reduzira a 300 mil pessoas, 80% delas na capital e arredores. Era uma fase de crise profunda e descrédito das instituições judaicas. Entre outros problemas, milhões de dólares de indenizações às famílias de vítimas da AMIA chegaram a sumir em meio às operações dos “bancos comunitários” (Patrícios, Mayo, Banco Israelita de Córdoba, Banco Israelita de Rosário), cuja quebra entre 1998 e 1999 levou o presidente da DAIA a processar por antissemitismo o presidente do Banco Central, Pedro Pou.

Àquela altura, 30% dos judeus de classe média tinham perdido renda e se tornado neo-pobres (conforme estudo sociodemográfico patrocinado pelo American Jewish Joint Distribution Commitee, publicado em 2005, citado por Ricardo Feierstein em Historia de los judíos argentinos, editora Galerna, 2006). Hoje, a situação econômica voltou a melhorar e muitos emigrantes que foram para Israel já voltaram ao país. Mas as feridas dos últimos anos estão longe de ter cicatrizado...

16.5.09

Israel e a Santa Sé

A idéia de que a recente visita do Papa Bento XVI a Israel comprovaria a superação das divergências entre o Estado judeu e o Vaticano não resiste às análises menos apressadas. A visita foi altamente midiática, com centenas de oportunidades de fotos, que correram o mundo, mas há dúvidas quando se trata dos reais ganhos para Israel. Vou citar aqui alguns argumentos do cientista político Mitchel Bard, diretor da Jewish Virtual Library e conhecido por suas posições conservadoras (seu livro Mitos e Fatos – a verdade sobre o conflito árabe-israelense foi traduzido para o português pela Editora Sefer).

A Igreja católica, lembra Bard, tem uma relação pouco confortável com o sionismo desde que Theodor Herzl procurou o apoio do Papa Pio X para uma pátria judaica e ouviu do pontífice que os católicos não podiam reconhecer o povo judeu, já que os judeus nunca tinham reconhecido Jesus. “Se vocês forem para a Palestina, e se o povo judeu se estabelecer lá, nossas igrejas e nossos sacerdotes estarão a postos para batizar vocês todos” (o diálogo está no livro de Uri Bialar, Cross on the Star of David, Indiana University Press, 2005).

O Vaticano votou a favor da partilha da Palestina na histórica Assembléia-Geral da ONU em 1947, mas só em 1993 reconheceu o Estado de Israel. Desde então, o diálogo vem melhorando e o Papa João Paulo II visitou o país em 2000. Mas a série de equívocos da visita de Bento XVI demonstra que “as feridas do passado estão longe de ter cicatrizado”, segundo Bard. Os principais equívocos por ele apontados são:
• O Papa, alemão, afirmou que se tornou membro da Juventude Hitlerista contra a sua vontade; logo no início da viagem, porém, um porta-voz do Vaticano desmentira tal pertencimento, só para ter que voltar atrás, mais tarde, ao ser informado de que o fato era de domínio público e tinha sido confirmado na autobiografia de Bento XVI.
• O rabino Israel Meir Lau, presidente do Yad Vashem, mostrou-se descontente com o fato de o Papa, em discurso durante visita à instituição, não ter mencionado alemães nem nazistas como responsáveis pelo Holocausto. O Pontífice falou genericamente em milhões de vítimas inocentes, num discurso convencional, mas não especificou os judeus nem teve qualquer palavra de simpatia em relação à sua tragédia singular.
• O Vaticano continua a limitar o acesso aos arquivos que podem esclarecer o papel de Pio XII (Papa de 1939 a 1958) na Segunda Guerra. Em 2008, Bento XVI anunciou sua intenção de beatificar Pio XII; e em janeiro de 2009 anunciou a suspensão da excomunhão do bispo Richard Williamson, que nega o Holocausto.
• O Papa fez seus discursos “politicos” apenas nas areas palestinas. Em Belém, lamentou as perdas palestinas em Gaza e, embora exortando os jovens locais a rechaçarem o terrorismo, não mencionou o Hamas. Também condenou o muro construído por Israel, ensejando que Mahmoud Abbas aproveitasse a ocasião para chamá-lo de “muro do apartheid”. Ponto palestino na guerra de propaganda!

“A decisão do Papa de ir a Israel em peregrinação foi bem recebida e mostrou a distância que o Vaticano percorreu desde a visita de Herzl a Roma. Mas as ações e omissões durante a viagem indicaram que ainda há uma distância a percorrer antes que Israel tenha da Santa Sé o respeito que merece”, conclui Bard.

Schylock - um lado humanista de Shakespeare

Não há razão para ver antissemitismo em Shakespeare por causa do personagem Shylock, em O Mercador de Veneza: é o que diz a premiada dramaturga brasileira Miriam Halfim sobre uma questão que há décadas divide os estudiosos. A peça foi encenada, no século XX, tanto nos palcos nazistas, onde Shylock foi caracterizado como um usurário judeu repulsivo, o vilão prototípico, quanto por grupos teatrais que “desconstruiram” o texto com a intenção de fazer o público confrontar seus preconceitos. No cinema, o texto ganhou uma adaptação recente estrelada por Al Pacino (The Merchant of Venice, Inglaterra/Itália/Estados Unidos, 2004).

Pergunta: Que elementos indicam que Shakespeare não condena Schylock?
Miriam Halfim: Minha tese, e sobre isso foi minha dissertação de mestrado, é que o célebre monólogo de Shylock na peça O Mercador de Veneza, no qual ele diz que é um judeu, mas que se o ferem, sangra como todos os homens, se lhe fazem cócegas, ri como todos os homens, etc (Ato III, cena 1) mostra um lado humanista de Shakespeare. O que pode parecer antissemitismo mostra a verdadeira face do personagem como visto pelo genial dramaturgo, que enxerga além do preconceito popular. Um autor que odiasse judeus não escreveria aquele monólogo tão impressionantemente humano e solidário.

Pergunta: O que caracteriza basicamente a personalidade de Schylock?
Miriam Halfim: A personalidade de Shylock é sóbria. Ele diz que pode comerciar com os gentios, mas não sentar-se à mesma mesa. A proibição vinha de fora, sempre foi sabido, e toda a escrita do bardo tem ironia. Uma leitura literal não funciona. Shylock não gosta de festas mundanas, mascaradas, mas na sinagoga, que ele frequenta, há música, toda a liturgia é cantada.

O pai que cuida da filha com zelo cabe na imagem do viúvo preocupado com a honra da casa. A dor de Shylock quando sabe que a filha vendeu o anel que a esposa lhe dera quando ainda solteiro bem mostra que valoriza sentimentos profundos, em contraste com a leveza excessiva do grupo gentio. Existe o Shylock que paira na superfície e deve agradar à platéia e o outro, vivo, abaixo da linearidade, que surge em algumas falas e no magnífico monólogo citado.

Pergunta: Na época de Shakespeare, como era o antissemitismo na Inglaterra?
Miriam Halfim: Havia poucos judeus na Inglaterra de Shakespeare. Oficialmente, todos haviam sido expulsos, mas os editos não valiam para os médicos, por exemplo, que geralmente cuidavam da realeza e eram convidados a ficar. Mesmo sem ver judeus pelas ruas, havia a criação de Christopher Marlowe, um contemporâneo de Shakespeare: ele, sim, descreveu seu judeu com preconceito indubitável em O Judeu de Malta. Ambos colocaram seus personagens na Itália. Já existia a Inquisição e na Inglaterra não se encontrava uma comunidade, mas na Itália havia judeus, e aquele país prosperava. O que causava todo tipo de inveja.

Pergunta: Shakespeare tem outros personagens judeus que ficaram famosos?
Miriam Halfim: Não há mais personagens judeus em Shakespeare. Shylock é o único sobre o qual escreveu. O poeta escrevia sob o mecenato da nobreza e a ela precisava agradar. Em tese, pelo menos. Mas, embora através dos séculos Shylock tenha oscilado entre o monstro e o homem, dependendo da política da época, uma leitura apurada e honesta de O Mercador de Veneza mostra um ser humano rico e muito sofrido. É imperdível.