19.5.10
Em busca da paisagem ancestral
Diante do passado traumático, que vem à tona mesmo quando se procura esquecê-lo, os judeus contemporâneos têm voltado no tempo e no espaço para entender “de dentro”, e não só intelectualmente, as circunstâncias que os formaram. É nesse contexto que leio “Udatchi - A árvore onde meu pai catava nozes” (editora Sefer), livro em que Michel Rosenthal Wagner, advogado paulista, conta como sua visão de mundo foi sacudida positivamente pela visita aos locais de infância de seu pai e avós (hoje na Ucrânia, antes Romênia e Áustria-Hungria), muitos deles ainda intactos no século XXI.
Segundo Michel, a viagem superou a satisfação de uma busca de raízes. Com poucas pistas, ele, que se considerava um judeu secular, diz ter encontrado mais que o aclaramento das histórias ancestrais ao passar por um “cataclismo espiritual” ao participar, em Uman, da grande festa do Ano Novo judaico, em meio a uma multidão de 28.000 religiosos reunidos nos arredores da tumba do Rabino Nachman de Breslav, bisneto de Baal Shem Tov, precursor do movimento chassídico.
Michel conheceu a sinagoga que seus avós freqüentavam em Sadagura, a casa onde moraram em Cernovitz, o restaurante e a mercearia da família, o gueto para onde foram deportados, um museu judaico. Poderia ser uma história de dor e perda, um reviver da tragédia, mas o mergulho articulou-se em torno da "possibilidade poética, possível e prática de mudança de sentimentos de angústia para sentimentos de liberdade, tratando dos traumas geracionais que permeiam a vida de descendentes destas histórias”.
A partir da experiência, ele escreveu o livro e passou a dar palestras que estimulam as pessoas a “encontrarem suas sementes e a plantar seus próprios jardins com uma vida mais resolvida”.
22.12.09
Memória e História
Em uma conversa que deve ter ocorrido em torno de 1908, Freud contou a Theodor Reik a seguinte piada:
Perguntaram ao menino Itzig na escola: “Quem foi Moisés?” Ele responde: “Moisés era filho de uma princesa egípcia”. “Isto não é verdade”, diz o professor. “Moisés era filho de mãe hebréia. A princesa egípcia encontrou o recém-nascido em uma cesta.” Mas Itzig responde: “É o que ela diz!”
A piada nos chama a atenção por dois aspectos; em primeiro lugar, o precoce Itzig parece já mostrar talento para o que Paul Ricoeur, referindo-se ao próprio método de Freud, chamou elegantemente de “hermenêutica da suspeita”; e em segundo lugar, porque foi Freud, afinal, quem nos ensinou a levar a sério as piadas[...]”Freud sugeriu em "Moisés e o Monoteísmo", diz Yerushalmi, que havia quase uma transmissão genética de memórias inconscientes. Essa transmissão explicaria para Freud, prossegue o historiador, “o poderoso sentimento de que, para o bem ou para o mal, um indivíduo jamais pode efetivamente deixar de ser judeu”.
Yerushalmi, nascido no Bronx de pais russos, foi por 28 anos o influente diretor do Centro de Estudos Judaicos e de Israel da Universidade de Colúmbia. Autor de interesses abrangentes (sua dissertação de doutorado foi sobre o médico marrano Isaac Cardoso), seu trabalho mais citado são as reflexões sobre a memória coletiva do povo judeu, Zakhor: História Judaica e Memória Judaica, que examina o conflito entre o vigoroso (e não verificável) relato coletivo judaico, pleno de emoções e paixões, e a História propriamente dita, com sua exigência de evidências.
16.5.09
Memórias dos subúrbios da Central do Brasil
A repercussão positiva do artigo de Rose Esquenazi sobre o lérer Tabak, um dos criadores do Colégio Eliezer Steinbarg, confirma que ainda cabem em nossa comunidade registros de diferentes memórias, que contribuam para escrever uma História, inclusive uma petite Histoire, representativa, não "oficial" nem laudatória, com lugar para o contraditório. Isso nem sempre é fácil, pois, como dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues, o passado de 50 anos atrás às vezes parece muito mais remoto que o do século 18...Então, foi com uma festa para os depoentes e seus familiares que o Museu Judaico anunciou a finalização das entrevistas com 70 antigos moradores judeus dos subúrbios da Central do Brasil. Para os judeus cariocas, essa foi uma área efervescente na primeira metade do século XX, com grêmios, escolas, sinagogas, milhares de famílias de imigrantes lutando para dar boa educação aos filhos. As entrevistadoras, incansáveis, foram Rachel Niskier, Ana Antabi e Isabella Waga, diretoras do Museu, cujas extensas anotações foram transcritas pelo historiador Fabio Bocco. É uma bela “viagem” pessoal e social, à disposição dos pesquisadores – viagem que começa nos guetos europeus, prossegue nas ruas calorentas junto aos trilhos da ferrovia Central do Brasil e se consolida na atual e completa inserção dos judeus na sociedade brasileira.

