2.6.09

Zemer e a música klezmer

Está acontecendo há alguns anos um renascimento da música klezmer (aquela que era tocada pelos músicos judeus da Europa Oriental em festas, judaicas e não judaicas) nos EUA e na Europa.



Entre nós, quem entende tudo do assunto é Mauro Perelmann, diretor musical, arranjador e violonista do grupo Zemer.

Agora, estamos torcendo para que ele consiga levar o Zemer ao Festival Multiculutral de Nova Scotia, Canadá, no fim de junho. Reconhecidos por sua excelência, os músicos do grupo são os únicos convidados brasileiros ao Festival, mas ainda não conseguiram juntar os recursos para as sete passagens (a estadia é por conta dos organizadores). Pessoas físicas ou jurídicas que quiserem participar desse empreendimento cultural podem escrever para mailto:maupe@terra.com.br Vejam nos vídeos ao lado que a causa, além de boa, é um prazer para os ouvidos...

Nos EUA, o gênero foi extremamente popular até os anos 1950, quando pareceu sucumbir, junto com o idish, à avalanche do sionismo e da cultura hebraica. Mas o mundo gira, a lusitana roda, e o Klezmer Revival empolga cada vez mais gente. Até porque é uma música que não estagnou, como nos informa Mauro Perelman:

"A música klezmer se deixa influenciar, assim como acontecia na Europa, pelos estilos musicais vigentes, como jazz, rock e world beat. Nos EUA, podem se contar cerca de 200 instrumentistas e grupos de tendências diferentes. Não se pode esquecer a participação do violinista Itzchak Perlman num projeto que virou CD, vídeo e show ("In The Fiddler's House"), tocando com vários grupos do Klezmer Revival, e que contribui muito para a popularização do movimento.

Na Europa, o klezmer se desenvolve principalmente na Alemanha. Há pelo menos 25 grupos formados por não-judeus. Na Hungria, o Dy Naye Kapelye fez uma pesquisa de campo junto a ciganos da região que sobreviveram à Segunda Guerra, antes da qual tocavam com judeus, e há o Budapest Klezmer Band.

Na Áustria, aparecem o Frejlech - na contracapa de seu CD lê-se "Nós tocamos música klézmer não só por interesse musical, mas também para preservar uma parte da cultura ídish, que foi totalmente destruída por nossos pais" -, o Narishe Tantz ( trio de acordeom, clarinete e tuba) e o Ensemble Klesmer Wien. Na Holanda, existem cerca de 20 bandas, entre as quais a Amsterdam Klezmer Band e a "Ot Azoy". E há ainda bandas em países como França, Itália, Dinamarca, Suécia, Inglaterra e Argentina".

Scholem Aleichem no Museu Judaico

Tevye, filme de 1939, restaurado, direção de Maurice Schwartz

Um dos maiores mestres literários da história do povo judeu, Scholem Aleichem (1859-1916), terá seus 150 anos lembrados no Museu Judaico no próximo dia 16, a partir das 18 horas, em programa duplo: conferência do professor Henrique Rzezinski e apresentação de contos pelo ator Leo Wainer.

O escritor é um fenômeno – fez e faz sucesso de público e crítica e continua aclamado e traduzido para dezenas de idiomas. Depois de séculos de tristeza e suspiros, Scholem Aleichem trouxe o riso e o humor à literatura em língua idish. É um riso ao qual não faltam lágrimas, e cujo herói mais importante e vigoroso é o coletivo, repleto de figuras emblemáticas como a de Tevie, o leiteiro, que trabalha, sofre, teme as alterações à tradição, discute com Deus...e se tornou um símbolo mundialmente conhecido graças ao musical da Broadway O Violinista no Telhado.

Os funerais de Scholem Aleichem, em 15 de maio de 1916, levaram milhares de pessoas às ruas de Nova York. Na sua lápide no cemitério de Cypress Hills, Queens, o epitáfio termina assim (tradução livre):

“E enquanto o público/ria, se esbaldava e pulava de alegria/ele sofria – e isso só Deus sabe --/em segredo, para que ninguém visse.
(Un davke demolt ven der oylem hot
gelakht, geklatsht, un fleg zikh freyen,
hot er gekrenkt — dos veys nor got —
besod, az keyner zol nit zeyen.
)

No seu testamento de dez pontos, o primeiro dizia:

"Onde quer que eu morra, não me deixem ser sepultado entre os aristocratas, os bem de vida, os ricos, mas sim entre a gente comum, os trabalhadores, o verdadeiro povo judeu, para que a lápide do meu túmulo honre os túmulos simples ao meu redor, e os túmulos simples honrem o meu, da mesma forma que a gente simples e honesta honrou, durante minha vida, o seu escritor”.

Espanha e judeus de Salônica: informações da Fundação Raoul Wallenberg



Rota de deportação


Cônsul geral da Espanha em Atenas entre 1944 e 1945, Sebastián Romero Radigales salvou mais de 500 judeus sefaradis de Salônica, entre eles 366 prisioneiros do campo de Bergen Belsen, que foram embarcados para a Palestina via Atenas. Essa pouco conhecida história de peripécias diplomáticas e pressões sobre o franquismo, resgatada graças à Fundação Raoul Wallenberg (http://www.raoulwallenberg.net/?es/salvadores), faz parte da série Revelações sobre el Holocausto, do jornalista espanhol Eduardo Martin de Pozuerlo.

A série, publicada no jornal La Vanguardia, foi premiada pela Fundação Raoul Wallenberg por conter informações inéditas, garimpadas nos arquivos nacionais do Reino Unido, em Londres, sobre o Holocausto e a Espanha. “A obscura política do franquismo em relação aos sefaradis e, paralelamente, o extraordinário comportamento de alguns diplomatas espanhóis, é algo que deve ser investigado, contado e recordado, junto com [o comportamento] de todos aqueles que arriscaram a vida por seus semelhantes”, escreve o jornalista.

Salônica durante séculos abrigou uma florescente comunidade de descendentes de judeus portugueses e espanhóis. A comunidade, de 60 mil pessoas em 1941, foi praticamente exterminada em campos de concentração. Quando a Segunda Guerra terminou, restavam apenas 1.200 judeus, a maioria dos quais emigrou para Israel.

Novo velho golem

O golem de Praga é definitivamente um ótimo negócio. O gigantesco boneco de barro que, de acordo com a lenda judaica e tcheca, foi trazido à vida no século XVI por um rabino, para proteger os judeus de perseguições, está na moda. Proliferam na cidade hotéis temáticos, réplicas, bibelôs, espetáculos musicais, etc., tudo com o nome dele, que se infiltrou até na cozinha tcheca, no menu do restaurante...Golem (não kasher).

Em tempos de crise, não podia ser diferente. É cada vez maior o número de visitantes e turistas que colocam papéis com orações e pedidos de ajuda à beira do túmulo do rabino Judá Loew ben Bezalel, criador do superpoderoso golem. Até Michelle Obama, mulher do presidente dos EUA, visitou o túmulo quando esteve em Praga com o marido. Não se sabe se ela fez algum pedido...

O rabino, um erudito respeitado, cabalista e escritor, morreu há 400 anos, em setembro de 1609. É claro que a vulgarização de seu legado, que aponta para uma espiritualidade superficial, anda irritando muita gente. O rabino-chefe da República Tcheca, Karel Sidon, por exemplo, declarou ao jornal New York Times que os atuais desdobramentos o incomodam tanto quanto a visão de hordas de turistas comprando souvenirs de Kafka nas esquinas de Praga, sem jamais terem lido um só livro dele.

Houve várias lendas talmúdicas em torno de demônios, anjos, golems e outras figuras misteriosas. No caso de Praga, conta-se que o rabino inscreveu a palavra emet (verdade, em hebraico) na testa de sua criatura, a quem chamou de José, conhecido como Iossele no gueto. Mais tarde, o homem artificial fugiu ao controle do criador, que então apagou a letra e de emet, transformando-a em met, morte, e deu-lhe eterno descanso no sótão da sinagoga.

16.5.09

Infância pré-Holocausto









Menino com Arenque
Véspera de Iom Kipur

Hoje com 92 anos, Mayer Kirshenblatt emigrou da cidadezinha polonesa de Opatow (Apt, em idish) para o Canadá em 1934. Trabalhou, teve família, aposentou-se. E aos 73 anos começou a pintar: o resultado são telas como as acima, que podem ser vistas no Museu Judaico de Nova York (http://www.thejewishmuseum.org/) até 1 de outubro.

São 80 obras supercoloridas, ingênuas, nostálgicas, em que o artista autodidata recorreu às memórias de infância e adolescência para recriar os personagens e o cotidiano do shtetl [aldeia], o único mundo conhecido por milhões de judeus antes de Segunda Guerra.

A exposição tem nome longo: They Called Me Mayer July: Painted Memories of a Jewish Childhood in Poland Before the Holocaust [Eu me chamava Mayer July: Memórias Pintadas de uma Infância Judaica na Polônia antes do Holocausto].

Ela faz parte de um projeto museulógico que mescla memória, história oral e interpretação visual para fixar um passado do qual restam poucas testemunhas vivas. Pode-se comprar no Museu um álbum capa dura de 411 páginas, com 196 ilustrações coloridas e 11 desenhos em preto e branco, por apenas 40 dólares!!! (ah, inveja de livros tão baratos… graças às subvenções institucionais e aos mecenas pessoais). A mostra seguirá, em 2010, para o Museu Histórico Judaico de Amsterdam e, em 2011, para o Museu da História dos Judeus Poloneses, em Varsóvia.

O Museu Judaico de NY, fundado em 1904, tem uma coleção de 26 mil itens – quadros, escultura, fotografias, objetos arqueológicos e rituais. Faz exposições temporárias e tem programações educacionais (1109 Fifth Avenue e 92nd Street, Manhattan. Tel: 212.423.3200).

Israel e a Santa Sé

A idéia de que a recente visita do Papa Bento XVI a Israel comprovaria a superação das divergências entre o Estado judeu e o Vaticano não resiste às análises menos apressadas. A visita foi altamente midiática, com centenas de oportunidades de fotos, que correram o mundo, mas há dúvidas quando se trata dos reais ganhos para Israel. Vou citar aqui alguns argumentos do cientista político Mitchel Bard, diretor da Jewish Virtual Library e conhecido por suas posições conservadoras (seu livro Mitos e Fatos – a verdade sobre o conflito árabe-israelense foi traduzido para o português pela Editora Sefer).

A Igreja católica, lembra Bard, tem uma relação pouco confortável com o sionismo desde que Theodor Herzl procurou o apoio do Papa Pio X para uma pátria judaica e ouviu do pontífice que os católicos não podiam reconhecer o povo judeu, já que os judeus nunca tinham reconhecido Jesus. “Se vocês forem para a Palestina, e se o povo judeu se estabelecer lá, nossas igrejas e nossos sacerdotes estarão a postos para batizar vocês todos” (o diálogo está no livro de Uri Bialar, Cross on the Star of David, Indiana University Press, 2005).

O Vaticano votou a favor da partilha da Palestina na histórica Assembléia-Geral da ONU em 1947, mas só em 1993 reconheceu o Estado de Israel. Desde então, o diálogo vem melhorando e o Papa João Paulo II visitou o país em 2000. Mas a série de equívocos da visita de Bento XVI demonstra que “as feridas do passado estão longe de ter cicatrizado”, segundo Bard. Os principais equívocos por ele apontados são:
• O Papa, alemão, afirmou que se tornou membro da Juventude Hitlerista contra a sua vontade; logo no início da viagem, porém, um porta-voz do Vaticano desmentira tal pertencimento, só para ter que voltar atrás, mais tarde, ao ser informado de que o fato era de domínio público e tinha sido confirmado na autobiografia de Bento XVI.
• O rabino Israel Meir Lau, presidente do Yad Vashem, mostrou-se descontente com o fato de o Papa, em discurso durante visita à instituição, não ter mencionado alemães nem nazistas como responsáveis pelo Holocausto. O Pontífice falou genericamente em milhões de vítimas inocentes, num discurso convencional, mas não especificou os judeus nem teve qualquer palavra de simpatia em relação à sua tragédia singular.
• O Vaticano continua a limitar o acesso aos arquivos que podem esclarecer o papel de Pio XII (Papa de 1939 a 1958) na Segunda Guerra. Em 2008, Bento XVI anunciou sua intenção de beatificar Pio XII; e em janeiro de 2009 anunciou a suspensão da excomunhão do bispo Richard Williamson, que nega o Holocausto.
• O Papa fez seus discursos “politicos” apenas nas areas palestinas. Em Belém, lamentou as perdas palestinas em Gaza e, embora exortando os jovens locais a rechaçarem o terrorismo, não mencionou o Hamas. Também condenou o muro construído por Israel, ensejando que Mahmoud Abbas aproveitasse a ocasião para chamá-lo de “muro do apartheid”. Ponto palestino na guerra de propaganda!

“A decisão do Papa de ir a Israel em peregrinação foi bem recebida e mostrou a distância que o Vaticano percorreu desde a visita de Herzl a Roma. Mas as ações e omissões durante a viagem indicaram que ainda há uma distância a percorrer antes que Israel tenha da Santa Sé o respeito que merece”, conclui Bard.

Schylock - um lado humanista de Shakespeare

Não há razão para ver antissemitismo em Shakespeare por causa do personagem Shylock, em O Mercador de Veneza: é o que diz a premiada dramaturga brasileira Miriam Halfim sobre uma questão que há décadas divide os estudiosos. A peça foi encenada, no século XX, tanto nos palcos nazistas, onde Shylock foi caracterizado como um usurário judeu repulsivo, o vilão prototípico, quanto por grupos teatrais que “desconstruiram” o texto com a intenção de fazer o público confrontar seus preconceitos. No cinema, o texto ganhou uma adaptação recente estrelada por Al Pacino (The Merchant of Venice, Inglaterra/Itália/Estados Unidos, 2004).

Pergunta: Que elementos indicam que Shakespeare não condena Schylock?
Miriam Halfim: Minha tese, e sobre isso foi minha dissertação de mestrado, é que o célebre monólogo de Shylock na peça O Mercador de Veneza, no qual ele diz que é um judeu, mas que se o ferem, sangra como todos os homens, se lhe fazem cócegas, ri como todos os homens, etc (Ato III, cena 1) mostra um lado humanista de Shakespeare. O que pode parecer antissemitismo mostra a verdadeira face do personagem como visto pelo genial dramaturgo, que enxerga além do preconceito popular. Um autor que odiasse judeus não escreveria aquele monólogo tão impressionantemente humano e solidário.

Pergunta: O que caracteriza basicamente a personalidade de Schylock?
Miriam Halfim: A personalidade de Shylock é sóbria. Ele diz que pode comerciar com os gentios, mas não sentar-se à mesma mesa. A proibição vinha de fora, sempre foi sabido, e toda a escrita do bardo tem ironia. Uma leitura literal não funciona. Shylock não gosta de festas mundanas, mascaradas, mas na sinagoga, que ele frequenta, há música, toda a liturgia é cantada.

O pai que cuida da filha com zelo cabe na imagem do viúvo preocupado com a honra da casa. A dor de Shylock quando sabe que a filha vendeu o anel que a esposa lhe dera quando ainda solteiro bem mostra que valoriza sentimentos profundos, em contraste com a leveza excessiva do grupo gentio. Existe o Shylock que paira na superfície e deve agradar à platéia e o outro, vivo, abaixo da linearidade, que surge em algumas falas e no magnífico monólogo citado.

Pergunta: Na época de Shakespeare, como era o antissemitismo na Inglaterra?
Miriam Halfim: Havia poucos judeus na Inglaterra de Shakespeare. Oficialmente, todos haviam sido expulsos, mas os editos não valiam para os médicos, por exemplo, que geralmente cuidavam da realeza e eram convidados a ficar. Mesmo sem ver judeus pelas ruas, havia a criação de Christopher Marlowe, um contemporâneo de Shakespeare: ele, sim, descreveu seu judeu com preconceito indubitável em O Judeu de Malta. Ambos colocaram seus personagens na Itália. Já existia a Inquisição e na Inglaterra não se encontrava uma comunidade, mas na Itália havia judeus, e aquele país prosperava. O que causava todo tipo de inveja.

Pergunta: Shakespeare tem outros personagens judeus que ficaram famosos?
Miriam Halfim: Não há mais personagens judeus em Shakespeare. Shylock é o único sobre o qual escreveu. O poeta escrevia sob o mecenato da nobreza e a ela precisava agradar. Em tese, pelo menos. Mas, embora através dos séculos Shylock tenha oscilado entre o monstro e o homem, dependendo da política da época, uma leitura apurada e honesta de O Mercador de Veneza mostra um ser humano rico e muito sofrido. É imperdível.

Memórias dos subúrbios da Central do Brasil

A repercussão positiva do artigo de Rose Esquenazi sobre o lérer Tabak, um dos criadores do Colégio Eliezer Steinbarg, confirma que ainda cabem em nossa comunidade registros de diferentes memórias, que contribuam para escrever uma História, inclusive uma petite Histoire, representativa, não "oficial" nem laudatória, com lugar para o contraditório. Isso nem sempre é fácil, pois, como dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues, o passado de 50 anos atrás às vezes parece muito mais remoto que o do século 18...

Então, foi com uma festa para os depoentes e seus familiares que o Museu Judaico anunciou a finalização das entrevistas com 70 antigos moradores judeus dos subúrbios da Central do Brasil. Para os judeus cariocas, essa foi uma área efervescente na primeira metade do século XX, com grêmios, escolas, sinagogas, milhares de famílias de imigrantes lutando para dar boa educação aos filhos. As entrevistadoras, incansáveis, foram Rachel Niskier, Ana Antabi e Isabella Waga, diretoras do Museu, cujas extensas anotações foram transcritas pelo historiador Fabio Bocco. É uma bela “viagem” pessoal e social, à disposição dos pesquisadores – viagem que começa nos guetos europeus, prossegue nas ruas calorentas junto aos trilhos da ferrovia Central do Brasil e se consolida na atual e completa inserção dos judeus na sociedade brasileira.

Discursos contra Hitler

“Alemães, vocês precisam saber disso. Horror, vergonha e arrependimento é do que se precisa em primeiro lugar. E só um ódio é necessário: o ódio aos canalhas que transformaram o nome da Alemanha numa abominação diante de Deus e de todo o mundo.”– Thomas Mann, janeiro de 1945.

O trecho acima é de um discurso que o escritor alemão Thomas Mann, exilado nos Estados Unidos, fez aos seus conterrâneos ao longo da Segunda Guerra. Foram 58 falas breves e contundentes, contra Hitler e o Terceiro Reich, transmitidos pela rádio inglesa BBC. Estão no livro Ouvintes alemães! Discursos contra Hitler (editora Zahar, tradução de Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick). É um documento que mostra como um dos grandes autores do século XX recorre à comunicação de massa para tentar convencer os alemães a lutar contra o regime nazista.

Leia e ouça trechos dos discursos, além de informações sobre Thomas Mann, no site http://www.zahar.com.br/catalogo_exclusivo.asp?id=1117&ide=172

1.5.09

Trinta vozes de Israel



Alguns dos principais ideólogos e articuladores da criação do Estado de Israel, que completou 61 anos, serão lembrados pelo Museu Judaico do Rio de Janeiro com a exposição "Do exílio à redenção: 30 vozes de Israel", que poderá ser visitada de 5 de maio a 4 de junho.

Membros da primeira aliá (imigração para Israel), entre 1881 e 1903

Kotel, 1920

Será uma oportunidade para que o público visite ou revisite acontecimentos e personalidades emblemáticos, como Theodor Herzl e Golda Meir, bem como para que tome conhecimento de figuras menos conhecidas mas nem por isso menos importantes da História recente. A exposição trará uma linha do tempo e palestras, com abertura por Edgar Leite.

30.4.09

Com olhos em Gaza

“A questão do Oriente Médio costuma ser reduzida ao conflito entre palestinos e israelenses, no qual todos os árabes apoiam, pelo menos na retórica, os primeiros, e os países desenvolvidos do Ocidente – especialmente os EUA – dão sustentação a Israel. Este modelo binário de interpretação, no qual eram delineados apenas dois lados, é ainda uma herança do maniqueísmo que caracterizava muitas das análises políticas durante o período da Guerra Fria. Mas o Oriente Médio é exemplo típico do que não pode ser tratado num esquema binário, mas no plano da complexidade”.

Assim começa o artigo de Dina Lida Kinoshita e Esther Kuperman cuja íntegra pode ser lida na revista on line Versus [ www.versus.ufrj.br/vs_n1/vsn1_debate.html ], do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O título faz alusão ao livro Sem Olhos em Gaza, de Aldous Huxley, que por sua vez aludia a um verso do poeta inglês John Milton sobre Sansão, o herói bíblico escravizado e cegado pelos filisteus.

“Contrariando Huxley, mostramos que é possível ver a paz nos arredores de Gaza”, dizem as autoras. Kinoshita é doutora em Física, professora da USP e membro do Conselho da Cátedra Unesco de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância. Kuperman é historiadora, doutora em Ciências Sociais e membro da Coordenação dos Amigos Brasileiros do Paz Agora.

Elas lembram que não se pode analisar a situação atual no Oriente Médio sem levar em conta a mudança de poder em Washington. O diálogo já em curso com setores que o ex-Presidente Bush definia como “as forças do mal”, inclusive o Irã, pode acarretar grandes mudanças na região e o esvaziamento do discurso da segurança, dizem. Além do mais, não se pode esquecer que a descarbonização energética prometida pelo governo Obama pode diminuir, num futuro nem tão distante, a importância estratégica do Oriente Médio, relativizando antigas alianças.

Lerer Tabak, um professor muito especial


por Rose Esquenazi, jornalista)

Pejsach Tabak, mais conhecido como lérer (professor) Tabak, nasceu em 1908, na impronunciável Ojdrietyze, Polônia. Em 1934, aceitou o convite para dar aulas para a comunidade judaica no Brasil, enfrentando um grande desafio. Ele iria deixar a cidade de Lublin, onde lecionava, e rumar para o desconhecido Rio de Janeiro, deixando toda a família na Europa. Curiosamente, as boas vindas no navio, no dia da chegada ao Brasil, foram dadas por Sara Goldstein, que viria a ser a sua mulher e grande companheira de toda a vida.

Sara chegara três anos antes ao Brasil. Nascida em Widz, na Polônia, localidade próxima à Vilna, chamada de “Jerusalém da Lituânia”, mudou-se com a família para a Sibéria, onde pôde estudar. Ao voltar para a cidade natal, percebeu que o antissemitismo era crescente e ameaçador. Os alunos judeus não podiam se sentar nos mesmos bancos dos poloneses nem cursar a universidade.

No Brasil, Sara representou a sociedade de imigração judaica Hias, que protegia as mulheres que chegavam ao país desamparadas e sem documentos. Essas moças, muitas vezes, eram alvo de máfias de exploradores de mulheres. Eles costumavam iludir jovens judias que vinham de vilarejos pobres da Europa, muitas vezes com promessas de trabalho digno e até casamento.

No Rio, Pejsach e Sara tomaram a iniciativa de reerguer o Colégio Scholem Aleichem, fundado em 1928 por um grupo de ativistas sociais. Nos bons tempos, esse estabelecimento de ensino teve a direção do fabulista Eliezer Steinbarg.

Mas, em 1934, o colégio passou por difíceis crises financeiras e mudou várias vezes de linha pedagógica. Sara e Pejsach se casaram nesse mesmo ano e também enfrentaram dificuldades. Para reerguer o colégio, lérer abriu mão de seu salário durante um ano. Por essa razão, o casal decidiu morar em uma dependência do próprio colégio, então na rua Paula Souza. Os alunos começaram a chegar e os pais passaram a confiar no trabalho feito pelo educador. Pejsach não se limitava à educação formal: promovia, junto com os demais professores, concertos, conferências e academias literárias. Agora, as crianças podiam aprender idish, história e cultura judaica.

Anos mais tarde, o colégio mudou de endereço. Na Rua Ribeiro Guimarães, 178, na Aldeia Campista, passou a contar como a participação dos pais, que se tornaram ativistas. O caráter da escola foi definido nas palavras de Pejsach Tabak:

“Moderna em sua metodologia educacional, laica e humanitária em seu espírito. Além disso, fazia questão, através das disciplinas judaicas, folclore e canto das festas tradicionais, de cultivar nos alunos o amor ao Brasil, ao povo brasileiro e à sua cultura, com interesse pelo seu progresso e bem-estar”.


Colégio Eliezer Stainbarg, 1959 (arquivo da família)


Em 1946, depois da Segunda Guerra, Pejsach e os ativistas que o acompanhavam decidiram fundar uma nova instituição de ensino. O projeto incluiria a Casa do Povo, onde haveria a ampliação das atividades culturais. Assim nasceu o Instituto Israelita Brasileiro de Cultura e Educação. Na direção central, havia 42 pessoas muito especiais. Em suas rápidas memórias, o lérer faz questão de citar os “inesquecíveis Tuli Lerner e Isaac Coiffman”.

Curiosamente, o grande arquiteto Oscar Niemeyer ofereceu um projeto para a Casa do Povo, que seria instalada no terreno comprado na Rua Haddock Lobo, na Tijuca. Infelizmente, este projeto não foi preservado, nem na casa da família Tabak nem no escritório de Niemeyer. Talvez devido a uma reviravolta no final de 1951. O Scholem passou por uma crise ideológica e, ao não concordar com as “tendências radicais” (stanilistas), Pejsach mudou-se com a família para Israel.

A não-adaptação ao país obrigou a volta ao Brasil e, no fim de 1952, o casal empreendeu nova campanha financeira para fundar um novo colégio: o Eliezer Steinbarg. Instalado na Rua das Laranjeiras, o espaço passava a abrigar também o Coro Israelita Brasileira e o Grêmio do Instituto Israelita Brasileiro de Cultura e Educação. Começava assim uma nova etapa na vida educacional e cultural na colônia israelita do Rio de Janeiro.

* Rose Esquenazi é nora do lérer Tabak. Ele teve dois filhos, Israel, jornalista, e Lea, professora.

Cucina Ebraica

Entre os livros de culinária judaica que encontrei na internet nos últimos dias para paparicar meu lado gourmet, gostei desse Cucina Ebraica: Flavors of the Italian Jewish Kitchen [Chronicle Books, $29.95 na amazon], da americana Joyce Goldstein. Porque as receitas são variadas, saudáveis, gostosas sem ser engordativas, com uma variedade enorme de beringelas, e mais alcachofras alla giudia, fritto misto, peixes marinados em ervas. A autora se derrama em elogios à tradição italiana de usar ingredientes frescos e de alta qualidade.

Um século de Rita Levi Montalcini

A mais idosa detentora de um prêmio Nobel, Rita Levi Montalcini fez cem anos semana passada, cercada de homenagens do governo italiano e de seus pares. Ela ainda trabalha em seu laboratório de pesquisas biomédicas e disse à imprensa que se sente mais inteligente hoje do que quando era estudante. Graças à plasticidade neural, o cérebro não envelhece como o corpo, desde que se mantenha em atividade, garante. Ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, desde que estimulados por trabalho, curiosidade, paixões...

Nascida em Turim numa família judia burguesa, Rita se escondeu quando o governo fascista de Mussolini impôs restrições aos judeus, durante a Segunda Guerra, e viveu um tempo fora do país. Tornou-se uma das mais respeitadas neurocientistas da atualidade. Em 1986, dividiu o Nobel de Medicina com o norte-americano Stanley Cohen pela descoberta dos mecanismos que regulam o crescimento celular, o que vem a ter consequências para as pesquisas ligadas a doenças do envelhecimento, como o mal de Alzheimer.

A cientista diz, no livro Elogio da Imperfeição[Editora Nobel, São Paulo, 1991, tradução de Marcella Mortara & Valerio Mortara], que o nazismo e o fascismo apelaram ao cérebro “emocional” dos povos alemão e italiano, conduzindo-os sem apelar para a razão.

“A razão é filha da imperfeição dos seres humanos. Nos invertebrados, tudo está programado: eles são perfeitos. Já nos seres humanos, imperfeitos, o recurso à razão e à ética se tornou essencial, o mais alto grau de evolução darwiniana”.
Sobre sua recusa ao papel que a família esperava dela, lembra:
"Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar...Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava na África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era meu grande sonho!”
[hoje Rita Levi Montalcini apóia projetos que ampliam a escolaridade das meninas em países africanos].

12.4.09

Arte contemporânea sobre tradição


Repensar e redefinir objetos rituais já é uma tradição dos artistas judeus ocidentais, acolhida por museus como o Contemporary Jewish Museum de San Francisco. Agora, 80 artistas expõem ali -- até 2 de junho – sua visão sobre o significado e as formas do prato do seder de Pessach, que fica no centro do ritual que simboliza a libertação da escravidão no Egito.
Outros expõem seus inovadores suportes e suas intenções de pensar o contemporâneo no Jewish Museum de Nova York, caso de Neil Goldberg, com esse "Matzah e papel em resina e rodinhas" acima. Mais detalhes sobre este multi-artista em http://www.neilgoldberg.com

Apoio à diplomacia nos EUA

Uma pesquisa de opinião feita com judeus norte-americanos pelo lobby pacifista J Street mostra que as pombas estão ganhando dos falcões no momento (a terminologia vem da guerra do Vietnam, mas ainda se usa). Há grande apoio aos esforços diplomáticos de costurar um acordo de paz, ainda que em troca de concessões antes vistas com desconfiança.

  • Segundo a pesquisa, 69% dos judeus norte-americanos aprovariam o envolvimento firme do Governo Obama no sentido de articular a paz no Oriente Médio, mesmo que isso signifique pressionar israelenses e árabes a cederem em pontos que hoje parecem ímutáveis.
  • Também 69% dos entrevistados apóiam a disposição dos EUA de negociar com uma Autoridade Palestina que reúna Hamas e Fatah.
  • Esse apoio foi mantido mesmo quando os entrevistados foram informados que os EUA classificam o Hamas de organização terrorista. Outra pesquisa, conduzida pelo Truman Institute na Universidade Hebraica de Jerusalém, relatou que 69% dos israelenses também admitem que Israel se sente à mesa de negociação com Hamas-Fatah.
  • A solução de dois Estados é apoiada por 76% dos entrevistados.
  • A ação militar de Israel em Gaza foi aprovada por maioria de 3 a 1. Na prática, a ação não teve impacto profundo sobre a segurança de Israel, opinaram 59% dos entrevistados. Mas 41% acharam que a ação militar tornou o país mais seguro.

Irmãos Coen e Michael Chabon

Se você é, como eu, fã de carteirinha dos irmãos Joel e Ethan Coen, pode ler tudo sobre eles em http://coenbrothers.net/blog. Foi lá que acabei de saber que o filme A Serious Man (a história da desagregação da família Gopnik no final dos anos 60) não ficará pronto a tempo de concorrer ao Festival de Cannes, em maio.

Nada menos que oito dos 13 filmes da dupla já estiveram em Cannes. E eles ganharam o último Oscar de melhor filme, direção e roteiro por Onde os fracos não têm vez. Os irmãos dizem que entre seus planos no futuro próximo está a filmagem do livro The Yiiddish policemen's union / Academia Judaica de Polícia (editora Companhia das Letras).

E que livro!!! De zero a dez, eu daria dez para este texto de ficcão irônico, contundente, empático, de Michael Chabon, com excelente tradução de Luiz A. de Araújo e glossário de George Shlesinger.

Chabon, considerado um dos mais originais escritores norte-americanos contemporâneos, cresceu ouvindo os avós maternos falarem idish, e já teve seu livro Garotos Incríveis levado ao cinema. Academia é um inusitado romance policial noir cheio do som do idish, misturado ao "americano", e de referências judaicas. Um derrotado e pessimista detetive Meyer Landsman, sempre acompanhado por seu primo filho de judeu com índia, faz lembrar os anti-heróis de Hammett e Chandler, só que circulando num Alasca transformado em terra provisória cedida aos judeus pelos EUA depois da derrota para os árabes em 1948.

11.4.09

Do Museu Albert Kahn

A meia hora de Paris, em Boulogne-Billancourt, o Museu Albert Kahn é popular por seus jardins de diferentes estilos (japonês, francês, inglês, mais orquidário e roseiral). Para os aficcionados por fotografia e História, é a sede dos “Archives de la Planète”, memória viva dos 50países visitados, entre 1910 e 1931, por fotógrafos patrocinados pelo filantropo e banqueiro judeu Albert Kahn (1860 - 1940).

Kahn, um típico representante da ilustração e da confiança no progresso que se firmou na Europa dos primeiros anos do século XX, tinha sua utopia: achava que o reconhecimento mutuo era um passo essencial para a humanidade viver em paz. E para isso que meio melhor do que a fotografia, com sua linguagem que dispensa palavras? Os arquivos contêm mais de 70 mil fotos, algumas delas já reunidas em livros, que comprovam que o olhar, o trabalho e a devoção dos seres humanos se parecem do Oiapoque ao Chuí... ou do Polo Norte à Patagônia.

As fotos abaixo, de Jerusalém em 1925, são de Camille Sauvageot.












Marrakesh em 1912, em tons de sépia, foto de Stéphane Passet