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2.12.09

Teatro contra a intolerância


Duas peças que podem ser vistas no Rio nesse fim de semana, Ecos da Inquisição, de Miriam Halfim, e O Interrogatório, de Peter Weiss, não são apenas "históricas", pois a discussão sobre intolerância e totalitarismo continua atual. O diretor da primeira (que fica até o fim do mês no Centro Cultural da Justiça Federal) é Moacir Chaves, para quem a  Inquisição é um tema contemporâneo:

"A distância temporal esconde a permanência da Inquisição. Distância, aliás, nem tão grande assim", diz ele. "O Santo Ofício só foi extinto em 1821. Além disso, temos bem perto de nós diversos parentes próximos da nefanda instituição. Para não nos estendermos muito, fiquemos com o advento do Nazismo e seu produto final, o Holocausto. A Inquisição? Aconteceu anteontem. A escravidão? Foi ontem. E suas sequelas constituem marcas indeléveis da sociedade brasileira, como a gritante desigualdade social e a desvalorização do trabalho".


Eduardo Wotzik, diretor de O Interrogatório, de Peter Weiss, que volta ao Rio no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico (só em 4, 5 e 6 de dezembro), diz que a peça é “ uma maravilhosa oportunidade de nos lembrarmos que um Estado construído na ignorância está facilmente sujeito à bestialidade”. Para ele, “a miséria espiritual e física, a pobreza, o analfabetismo, a falta de humildade, a ignorância, a falta de noção de cidadania, do limite do outro e de ética, levam à destruição do meio ambiente externo e interno do homem”.

26.9.09

"O Interrogatório": vigília pela vida (por Michel Mekler)


Minha programação, ontem, era ver o início da peça “O Interrogatório”, de Peter Weiss, que coincidiu com o início do shabat, e sair para outro compromisso. No dia seguinte eu voltaria para ver o restante (são seis horas de duração), já que a peça, dirigida por Eduardo Wotzik (na foto), foi encenada em moto-contínuo, durante 24 horas, com o público podendo entrar, sair e voltar a qualquer hora.

No foyer da Casa de Cultura Laura Alvim, antes de começar a peça e o shabat, tocou-se o shofar. Subimos e os atores já estavam no teatro, sentados em suas cadeiras na platéia (os “judeus” de um lado, os “nazistas” do outro), ou no palco (caso do juiz). A peça trata do julgamento de alguns chefes do campo de Auschwitz , com base nos depoimentos de sobreviventes. Esses sobreviventes trabalhavam em setores estratégicos como farmácia, carregando os mortos, ou no departamento de assuntos políticos. Através dessa teia de testemunhas, entende-se como era o dia-a-dia do local.

De tempos em tempos, tocava-se um sinal e a peça se interrompia por alguns minutos, para quem quisesse se levantar ou sair. Eu sei que fui ficando, em meio a vários momentos emocionantes, inclusive com músicas cantadas pelos “sobreviventes” e, no intervalo, reza voltada para a parede de pedra do teatro (Muro das Lamentações?). Na verdade, só notei que a peça tinha acabado quando os atores começaram a repetir o que eu já tinha ouvido. Era meia-noite e o teatro continuava cheio, agora com um público mais jovem. Cada minuto valeu a pena.

[ abaixo, chegada de mulheres e crianças judias húngaras a Auscwitz, em 1944, arquivos do Yad Vashem ]



Como o Michel, também fiquei super-emocionada (e ao meu lado pessoas não escondiam as lágrimas) com a "vigília pela vida" de Eduardo Wotzik. O espetáculo recriou parte do julgamento de Frankfurt, em 1965, que processou oficiais e funcionários menos graduados por crimes de guerra. E é uma comprovação da maturidade cultural do Rio de Janeiro essa acolhida da diretora da Casa de Cultura Laura Alvim, Lygia Marina, a uma concepção de teatro que foge do ramerrão cotidiano. 
Assisti a três horas horas desse tour de force do diretor e de  40 atores: o tempo voou, apesar da náusea produzida não só pela dor das vítimas como pela ideia de que a abjeção dos carrascos jamais será suficientemente punida. O que se transplanta para outras latitudes e momentos, inclusive o atual, mas isso já é outra conversa...