2.10.08

McCain favorito entre os ortodoxos

Embora a maioria dos judeus norte-americanos tradicionalmente prefira os candidates democratas aos republicanos (a proporção é de quatro por um, segundo estimativas divulgadas pelo jornal Forward), a Republic Jewish Coalition (RJC) consegue levantar mais fundos que o National Jewish Democratic Council (NJDC). As duas organizações, criadas na década de 1980, não são obrigadas a declarar tudo o que arrecadam nem a identificar seus doadores, mas sabe-se que os judeus republicanos são financiadores mais generosos, como Sheldon Adelson, o bilionário dono de cassinos. De acordo com algumas fontes, a RJC arrecadou 4,5 milhões de dólares em 2006, contra 1,3 milhão da NJDC. A disparidade teria diminuído em 2008, mas ainda não há números finais disponíveis.

Entre os ortodoxos, John McCain é o franco favorito em relação a Barack Obama (78% contra 13%), segundo uma pesquisa do American Jewish Committee (mais detalhes em artigo de Eric Fingerhut no www.blogs.jta.org/politics). Segundo um pesquisador de opinião pública ligado ao Partido Democrata, Mark Mellman, os ortodoxos estão mais preocupados com Israel que os demais eleitores judeus, entre outras razões porque a maioria deles têm filhos ou outros familiares que emigraram para o país, e sentem mais confiança em McCain para defender os israelenses.

Um dos anúncios republicanos tem como título “Assessores de Barack Obama: pró-palestinos, anti-Israel, hostis à América”. O NJDC lançou, em Rosh Hashaná, uma a mensagem intitulada “A New Year, a New Direction” [Ano Novo, Nova Direção] afirmando que “Barack Obama está comprometido com a segurança e a proteção de Israel” e lembrando que o Senador co-patrocinou o Ato anti-terrorismo palestino e conclamou a União Européia a acrescentar o Hezbolá à sua lista de organizações terroristas.

Há mais, porém. Os ortodoxos, aponta Mellman, rejeitam a retórica liberal da maioria dos democratas em assuntos ligados a comportamento. E, num país que teve na escola pública universal e gratuita um dos pilares da sua democracia, outro ponto apreciado pelos ortodoxos, cujas famílias são maiores, é a defesa que os republicanos fazem de um sistema de compensação patrocinado pelos cofres públicos (créditos fiscais, por exemplo) para as crianças que freqüentam escolas religiosas privadas.

A batalha por corações e mentes tende a aumentar até a eleição e valem todas as imagens para dar ênfase às idéias. Mas a RJC reagiu com indignação ao comentário, feito pelo deputado democrata Alcee Hastings, de que os judeus devem desconfiar da candidata a vice-presidente pelo Partido Republicano, Sarah Palin, porque “qualquer pessoa que carrega armas e arranca a pele de alces não se importa muito com o que fazem com judeus e negros”. Hastings, que é negro, fez o comentário durante a conferência anual do NJDC, referindo-se ao fato de Palin orgulhar-se de ser uma exímia caçadora, de família de caçadores.

Irène Némirovsky: identidade e auto-ódio judaico


A vida da escritora Irène Némirovsky confirma que é impossível, em certos momentos históricos, renegar o judaísmo. Questões de identidade e pertencimento, amor e ódio, rejeição e obsessão, avultam com tamanho impacto que o tema passa a suscitar novas reflexões. Agora mesmo, o Museum of Jewish Heritage - A Living Memorial to the Holocaust, em Nova York, inaugurou a exposição Woman of Letters (que vai até 22 de março de 2009) sobre a vida e a obra da escritora. Nascida em 1903 em Kiev, de família abastada com a qual emigrou para a França após a Revolução comunista, tornou-se uma celebridade literária nos anos 30 e morreu em Auschwitz em 1942, embora tivesse se convertido ao catolicismo e sido colaboradora da imprensa anti-semita francesa.

Ao ser presa, Irène deixou uma pequena mala com fotos de família, um diário e o manuscrito da Suíte Francesa (no Brasil, edição da Companhia das Letras, tradução de Rosa Freira D'Aguiar), redescoberto pela filha Denise e publicado em 2004. Antes de ser obrigada a fugir da Paris ocupada pelos nazistas para o interior, Irène, que havia sido educada em francês, na melhor tradição da classe dominante russa, publicara mais de dez romances, alguns deles repletos de personagens judeus estereotipados, tipos avarentos e desqualificados.

Suíte Francesa, escrito durante a guerra, é, ao contrário, um livro cheio de empatia pelo sofrimento humano, com a ótica de alguém que, tendo mudado de lugar social, se vê num beco sem saída. Quando Irène foi presa, em 1942, o marido chegou a ir até o embaixador alemão pedir sua libertação, alegando que ela, além de ter se convertido, jamais escrevera nada que fosse generoso em relação aos judeus. Então, por que uma exposição nos EUA sobre essa mulher cuja empatia chegou tarde demais, e que foi “amiga dos carrascos” antes de ser lançada na mesma vala comum dos outros judeus que tanto desprezava?

A controvérsia precedeu a exposição, já que museus do holocausto costumam caracterizar-se por passar mensagens claras e não ambíguas. A explicação do diretor David Marwell e da curadora Ivy Barsky para sua opção de realizar a mostra foi a seguinte:

“Quando se é responsável, como nós somos, por narrar a complexa e difícil história que é o tema do nosso Museu, aprende-se seguidamente que o contexto é crucial. Em nossa exposição sobre Irène Némirovsky, contamos a história de uma mulher verdadeira que viveu numa época e num lugar específicos e foi confrontada com desafios inconcebíveis e inimagináveis.

A popularidade monumental da Suite Francesa e o intenso interesse pela vida da autora deram-nos aquilo que chamamos, em educação, de um momento didático – uma oportunidade de influenciar aqueles que se sentem intrigados por Némirovsky, aqueles que de outra maneira não cruzariam nossas portas, e envolvê-los no diálogo. Essa é uma oportunidade de reunir um rosto a um nome, e de contar a fascinante história dessa família e dessa vida literária, que foi, todavia, muito curta”.

Vale a pena entrar no site do Museum of Jewish Heritage para ver páginas do manuscrito da Suíte Francesa e ouvir o depoimento de Denise sobre a mãe. http://www.mjhnyc.org/irene/index.htm

25.9.08

Os dez judeus de Andy Warhol




Quase 28 anos depois de exibidos pela primeira vez, os “Judeus de Warhol: Dez Retratos Revisitados” ["Warhol's Jews: Ten Portraits Reconsidered] foram motivo de uma exposição em Nova York no primeiro semestre do ano e serão vistos a partir de 12 de outubro no Contemporary Jewish Museum de São Francisco, inteiramente remodelado. A incursão do “Papa do pop” na cultura judaica resultou em obras sobre fotografias de Golda Meir, Albert Einstein, Sigmund Freud, George Gershwin, Franz Kafka, Gertrude Stein, Sarah Bernhardt, Louis Brandeis, Martin Buber e os irmãos Marx. O processo de criação do artista começava com uma imagem do rosto do retratado, sobre a qual ele desenhava os contornos e depois colava a imagem escolhida sobre a original, usando camadas de acetato em cima das quais era feita a pintura.

Quando os “Dez Retratos” foram exibidos pela primeira vez, Andy Warhol era o mais famoso artista vivo dos EUA, queridinho das celebridades, e considerado pelos críticos como obcecado por dinheiro. Houve quem menosprezasse a importância dessa série, sob o argumento de que seu objetivo era apenas o de explorar o orgulho cultural judaico e usou-se muito a expressão “Jewploitation” para referir-se a ela.

O curador da atual exposição, Richard Meyer, conta que Warhol foi motivado a fazer os retratos depois que o Museu de Israel, em Jerusalém, encomendou a ele, na década de 1970, um retrato de Golda Meir, financiado pelo mecenas Sydney Lewis. Na ocasião, o artista ficou amigo de um dono de galeria de Nova York, Ronald Feldman, que lhe sugeriu uma série de dez retratos de judeus importantes do século XX. Várias instituições judaicas norte-americanas exibiram a série desde então.

Lembrando o Holocausto



Relizou-se em 2008 o 10º concurso "Carta a um Sobrevivente do Holocausto", uma iniciativa do Museu Judaico e da Sherit Hapleitá (Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista), para estudantes do ensino médio do Rio de Janeiro, que são assim estimulados a pesquisar os acontecimentos que levaram aos crimes nazistas. Nas fotos, momentos da premiação, em 16 de setembro, com a presença do presidente do Museu Judaico, Max Nahmias, do presidente da Sherit, Aleksander Laks, e do vice-presidente do Museu, Sani Gutman.

Emanuel e Mayer, os Lehman Brothers



O famoso banco começou com esses dois irmãos, imigrantes pobres que fizeram sucesso. O início de tudo remonta a 1844, quando o jovem Henry Lehman saiu da Bavária e se estabeleceu no Estado do Alabama. Depois de um ano percorrendo a zona rural como mascate, estabeleceu-se com um armazém de secos e molhados em Montgomery e trouxe os irmãos Emanuel e Mayer da velha terra.

A clientela, principalmente de fazendeiros, tinha pouco dinheiro vivo e costumava trocar mercadorias por algodão. Henry viajava para vender o produto em Nova York e Nova Orleans, onde morreu de febre amarela em 1855. Pouco depois, Emanuel e Mayer enveredaram pelo mundo dos empréstimos aos fazendeiros; o negócio deu tão certo que logo os irmãos abriram uma sucursal em Nova York; a Guerra Civil quase os levou à falência, mas eles se recuperaram. O resto é História...e que história!

Irã, Iraque e judeus nos EUA


A presença do presidente iraniano Ahmadinejad na ONU, segunda-feira (seu discurso pode ser ouvido em http://www.youtube.com/watch?v=rxSN-rIazjo), produziu uma enxurrada de protestos, inclusive numa manifestação convocada por uma coalizão de organizações judaicas em Manhattan.

Depois de uma petição assinada por mais de 20 mil pessoas, os organizadores da manifestação, que abarcou um amplo espectro político, retiraram o convite à participação da candidata a vice-presidente pelo Partido Republicano, Sarah Palin – que vem sendo apresentada pelos republicanos como mulher corajosa, bonitona, esportista, esposa leal e mãe exemplar de cinco filhos, mas está longe de ser um padrão de conhecimento quando se trata de temas internacionais...

O Irã é tema de grande preocupação na comunidade judaica norte-americana, mas não há consenso sobre os melhores meios de enfrentar o risco de que o país tenha armas nucleares, o que é visto como uma ameaça à segurança dos EUA e de Israel. De um lado, os conservadores falam em ataque preventivo, que alguns acham que pode acontecer em breve, do outro os liberais defendem a diplomacia.

Outra preocupação da comunidade é a intervenção no Iraque, uma das questões da campanha para a Presidência. O cartaz acima, que se espalha pela Internet, conclama os judeus a guardarem um lugar na agenda para um evento em novembro contra a guerra.

A manifestação de novembro é patrocinada por vários grupos do judaísmo liberal e secular, que bate forte na expansão do aparato industrial-militar e no discurso belicista. Hoje em dia, esses grupos não são mais apontados como “alternativos”, ou “esquerdistas”, já que a chamada “mainstream América” abriu-se bastante. É possível dizer que os EUA deixaram de ser, há muito tempo, aquilo que o jornalista Paulo Francis, morador de Manhattan, chamava jocosamente de FOT(Flying Over Territory, o vasto território entre Nova York e Los Angeles que, segundo ele, só merecia ser sobrevoado, pois ali faltaria vida inteligente...)

Racismo e Obama



[Na foto, Barack Obama e a mãe].

O racismo poderá derrotar o candidato democrata à Presidência dos EUA, filho de uma norte-americana branca e um queniano negro, caso a disputa final com John McCain seja apertada. Os motivos estão nesse artigo do jornalista brasileiro César Barroso, que faz nos EUA o excelente blog http://www.leiajunto.wordpress.com/

Diz o artigo:

Um terço dos democratas brancos sentem-se apreensivos com relação aos negros - muitos os chamam de “preguiçosos”, “violentos” ou responsáveis pelos seus problemas, segundo uma pesquisa da AP/Yahoo News com a Universidade de Stanford. Se a eleição for apertada, isso poderá custar a Baracak Obama a Casa Branca. É o que conta um artigo da Associated Press divulgado pelo MSNBC.com.

Quarenta por cento dos brancos americanos têm pelo menos uma visão negativa dos negros, e isso inclui votantes democratas e independentes. Eles têm a tendência a não votarem em Obama, em comparação aos que não mantêm nenhum tipo de preconceito contra os negros. “Há muito menos fanáticos do que há 50 anos, mas isso não quer dizer que são poucos”, declarou Paul Sniderman, cientista político da Universidade de Stanford.

O objetivo da pesquisa foi saber porque num cenário tão confortável para os democratas, Barack Obama continua numa luta ferrenha com John McCain, candidato do partido de um presidente impopular, da guerra do Iraque e da economia problemática. Apenas sete de cada dez democratas apóiam Obama, enquanto McCain tem o voto assegurado de 85% dos republicanos. Mas há também muitos brancos com visão negativa dos negros que votarão em Obama com entusiasmo.

A pesquisa indica também que alguns democratas não votarão em Obama por outro motivo: acham que ele não é competente. Três de cada 10 democratas que não votarão em Obama por não o acharem competente, votarão em McCain.

Mas a pesquisa divulga que, se não houvesse o problema racial, Obama estaria nesse momento mais seis pontos percentuais na frente de McCain.

Os entrevistados são escolhidos pelo telefone, mas respondem à pesquisa online. Essa modalidade, descoberta pela Knowledge Networks, facilita às pessoas serem mais honestas em responderem a perguntas embaraçosas e impopulares. “Nós ainda não gostamos dos negros,” declarou John Clouse, de 57 anos, refletindo os sentimentos de seus companheiros de mesa num café em Somerset, Ohio. Muitos acham que “se os negros fossem mais esforçados, eles poderiam estar no mesmo nível dos brancos”.

Dos partidários brancos de Hillary Clinton, 59% declararam que votarão em Obama, enquanto quase 17% votarão por McCain.

A pesquisa foi feita com 2.227 adultos, entre os dias 27 de agosto e 5 de setembro.

3.9.08

Da Argentina, o pós-judaísmo

Nos próximos dias, não vou postar nada, pois estarei na Argentina. Aproveito então para rementer vocês a um artigo publicado na Revista18 http://www.revista18.uol.com.br/ . Procuro explicar ali as posições de Darío Sztajnszrajber, do Seminário Rabínico Latino-Americano de Buenos Aires e um dos criadores do movimento YOK, que pode ser visto no site http://www.yoktime.com .

Para o filósofo, vivemos hoje um processo de re-significação da identidade judaica, que prescinde da necessidade de formação de qualquer identificação em bloco. Ele cunhou a expressão pós-judaísmo, que define como "uma abertura que dialoga com as normas, as faz verem-se como tais no espelho e clama por uma pós-identidade judia que escape ao idêntico".

Desenhos contra o nazismo





O Museu Histórico Alemão inaugurou em 28 de agosto uma exposição do artista plástico polonês Arthur Szyk (1894-1951), um dos mais importantes caricaturistas políticos dos EUA durante a Segunda Guerra e um dos primeiros a insistir que os governos ocidentais fizessem algo com urgência para salvar os judeus europeus diante da ascensão do nazismo. A mostra, que vai até 4 de janeiro de 2009, é a primeira do artista na Alemanha e terá como foco principal suas obras de denúncia da violência nacional-socialista.

O artista se exilou nos EUA em 1940 e seus desenhos, publicados em revistas e jornais populares como Time e New York Post, ajudaram a chamar a atenção dos políticos e da população em geral para a tragédia dos judeus europeus. A primeira-dama norte-americana Eleanor Roosevelt referia-se a ele como “o exército de um homem só”. Szyk também foi o autor de uma conhecida ilustração da Hagadá.

[Site do Museu Histórico Alemão, Deutsches Historisches Museum: www.dhm.de.]

Rabino é primo de Michelle Obama






Michelle Obama, mulher do candidato democrata à Presidência dos EUA, é prima do rabino negro mais conhecido do país, Capers Funnye. “O parentesco dá um toque inesperado à tão analisada relação entre Barack Obama e os judeus nessa campanha. Por um lado, organizadores, eleitores e doadores judeus, inclusive de algumas das famílias mais ricas e proeminentes de Chicago, desempenharam um papel essencial na ascensão política de Obama. Mas o Senador por Illinois lutou para superar as suspeitas de alguns grupos da comunidade judaica, inclusive o ceticismo a respeito de sua posição sobre Israel e os rumores, desacreditados mas persistentes, de que ele é, em segredo, muçulmano”, escreve Anthony Weiss no jornal The Forward (uma tradição do jornalismo norte-americano, criado em abril de 1897 como jornal diário em idish). A relação familiar, acrescenta Weiss, tinha passado praticamente desapercebida até agora.

Funnye é o primeiro negro a integrar o Chicago Board of Rabbis e participa também do Jewish Council on Urban Affairs e do American Jewish Congress of the Midwest. É bastante ativo e gosta de falar sobre a importância da aceitação de sua sinagoga pelos outros judeus dos EUA (aproximadamente 5 milhões e 300 mil, a maioria de ascendência asquenazita). Sua congregação, a Beth Shalom B’nai Zaken Ethiopian Hebrew Congregation, tem mais de 200 membros, quase todos negros, e foi fundada em 1918. Ela não é uma congregação apenas negra, e entre seus membros há também brancos judeus.

O rabino nasceu numa família metodista e se converteu ao judaísmo sob a supervisão de rabinos conservadores e ortodoxos. A maioria dos membros da congregação também se converteu na idade adulta. Apesar da expressão “Ethiopian Hebrew" no seu nome, a congregação não tem nenhuma relação com os judeus etíopes acolhidos por Israel nas últimas décadas. Ela é descrita como um misto de conservadora e ortodoxa moderna, com alguma influência afro-americana (um coral canta spirituals, com acompanhamento de percussão). Homens e mulheres sentam-se separadamente.

27.8.08

Voto judeu nos EUA


O voto judeu nos EUA não é uniforme, mas pende para o Partido Democrata desde a década de 1930. George W. Bush obteve 24% dos votos judeus na eleição presidencial de 2004, contra 76% dos votos dados ao democrata John Kerry. Quatro anos antes, Al Gore tinha obtido 79% do voto judeu. Mesmo depois da segunda Intifada, do 11 de setembro e da invasão do Iraque, a tendência se manteve. O que indica, segundo especialistas, que a comunidade judaica norte-americana não tem uma posição monolítica em relação ao Oriente Médio e tampouco vê a política externa como principal motivação na hora de votar.

Em artigo para o site
http://www.realclearpolitics.com/ ,
o cientista político Pierre Atlas lembra que a última pesquisa de opinião pública do American Jewish Committee, em novembro do ano passado, indicou que 46% dos judeus norte-americanos apoiavam a criação de um Estado palestino, 43% se opunham a ele e 12% não tinham opinião formada.

Agora, Barack Obama vem recebendo apoio de uma gama ampla do judaísmo norte-americano, da centro-direita à esquerda, como se vê em sites como o http://www.JewsForObama.com/ . Mas ainda não chega perto dos antecessores, sendo apoiado por cerca de 62% do voto judeu. Quanto mais velho o eleitor, menos tende a votar no candidato, por motivos que vão da raça à suposta pouca experiência dele. Obama é elogiado pelo site como um político cujo currículo combina com as expectativas da comunidade judaica, “que sempre manteve o envolvimento cívico em prol da melhoria do país e do conserto do mundo”.

Segundo o site, as “posições de Barack Obama sobre justiça social, direitos civis, meio-ambiente, imigração e apoio aos desfavorecidos refletem verdadeiramente os valores judaicos. Ao longo de toda a sua carreira, ele foi um forte defensor de Israel e se manifestou repetidamente contra o anti-semitismo”.

A aclamação de Obama, na convenção democrata de quinta-feira à noite, deixou os antigos militantes pelos direitos civis nos EUA em estado de euforia. Na mesma data, 45 anos antes, ocorreu a marcha em que Martin Luther King fez seu famoso discurso "Eu tenho um sonho". Um dos organizadores da marcha lembrava para os jornalistas que, na época, teve que se sentar na parte de trás de um ônibus ao cruzar o rio Potomac para ir de Washington D.C. ao Estado da Virgínia, pois ainda vigoravam as leis segregacionistas no sul do país.

Outra lembrança: na convenção democrata de 1948 para escolha do candidato à Presidência, o Senador Strom Thurmond liderou um ruidosa retirada de políticos sulistas do Partido Democrata em protesto contra o incipiente apoio da ala liberal do partido aos direitos civis e à dessegregação e deplorou o “risco” de ver brancos compartilhando teatros, piscinas e igrejas com negros. A elite sulista também não aceitava judeus nos seus clubes...

Em Israel, nostalgia política de Yehoshua

Um lamento do escritor A.B.Yehoshua, um dos membros do trio de ouro da literatura contemporânea israelense (com Amós Oz e David Grossman), contra a corrupção no país foi publicado pelo jornal britânico The Guardian no início desse mês. O escritor alega que a ocupação dos territórios palestinos, em vez de ajudar Israel, contribui para criar uma sociedade em que o tecido moral e político se deteriora à medida que a justiça é desafiada de maneira permanente. A íntegra do artigo, que admite que a corrupção é um problema hoje presente em todos os países, está em http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2008/aug/10/israelandthepalestinians.middleeast
A nostalgia de Yehoshua transcende ideologias. Diz ele:

"Não acredito que a corrupção venha à tona só porque o cumprimento das leis tenha sido aprimorado, ou porque os cidadãos, como a funcionária que acusou o Presidente Katsav de assédio sexual, sejam mais corajosos. O que está vindo à tona é um mal muito mais profundo, uma perda de valores no interior da sociedade israelense e de seu governo, tal como nunca existiu antes.

Eu me lembro como, na década de 1970, um ministro do Partido Trabalhista tirou a própria vida quando considerado suspeito de corrupção. Foi também isso o que fez o diretor de um grande banco, um economista brilhante, quando recaiu sobre ele a suspeita de crimes financeiros.

Ao falecer, tudo o que Pinchas Sapir, ministro das finanças da Primeira-Ministra Golda Meir, possuía era um modesto apartamento em Tel Aviv e uma pequena poupança. David Ben Gurion, fundador de Israel e sua personalidade política mais proeminente, morou durante os últimos 11 anos de sua vida numa pequena casa de madeira no kibutz Sde Boker, no deserto. Hoje, a extrema modéstia daquela casa ainda surpreende os visitantes.

O ex-Primeiro Ministro Menachem Begin também viveu até morrer num apartamento simples em Tel Aviv. Jamais a menor sombra de suspeita de corrupção perturbou sua paz
."

Álbum de viagem: Girona





Girona, cidade com 70 mil habitantes a duas horas e meia de trem de Barcelona, foi na Idade Média um importante centro onde conviveram as culturas judaica, árabe e cristã. Seu “Call Jueu” (call, em catalão, significa bairro ou gueto judeu) é apontado como o mais bem conservado da Espanha. Uma próspera comunidade sefaradita viveu na cidade durante 600 anos, até 1492, e no século XIII os judeus fundaram ali a primeira Escola de Cabalistas da Península Ibérica. Um museu judaico guarda registros dessa história. As fotos são do carioca Michel Mekler. Veja mais em
http://www.ajuntament.gi/call/eng/visita.php.

14.8.08

Good morning, Shanghai!


Acima, fac-símile da primeira página (fundo preto) do texto de abertura da audição inaugural do programa radiofônico em ídish criado por David Markus em Xangai. Foi no dia 17 de novembro de 1941, uma segunda-feira, às 16h40. O título era "Notícias judaicas locais". É a primeira vez que vem a público, gentilmente cedido pela jornalista Sara Markus Gruman, editora do Boletim ASA, que conta abaixo a emocionante história dos judeus europeus que conseguiram fugir para Xangai depois da eclosão da Segunda Guerra. Entre eles estava seu pai, David Markus, que chegou ao Brasil em 1951.

(Por Sara Markus Gruman*)

Notícias locais – Ontem, às 18 horas, uma inauguração festiva em Kungping Road, n. 445, abriu a primeira Casa Borochov no Extremo Oriente. Durante o ato houve uma impressionante manifestação da juventude sionista em Xangai.

Assim começava a primeira audição do único programa radiofônico para a comunidade judaica levado ao ar na cidade chinesa de Xangai. Idioma: ídish. Data: 17 de novembro de 1941.

David, um jovem moreno, alto, magro, bela estampa, 25 anos apenas, criou e dirigia o programa, transmitido às segundas e quintas-feiras pela XMHA, 600 quilociclos, uma subsidiária da americana NBC. Quando a Alemanha nazista invadiu seu país, a Polônia, em 1˚ de setembro de 1939, David cursava a Faculdade de Humanidades de Vilna, Lituânia. Outros judeus da Polônia, como as irmãs Gênia e Mina, Artur e Bóris, por caminhos diversos, fugiram para a Lituânia, país neutro que tinha comunicação aérea e marítima com o Ocidente. Vilna, sua cidade mais importante, recebeu, na avaliação de David, uns seis mil refugiados judeus. Em 15 de junho de 1940, quando os soviéticos ocuparam a Lituânia, aumentou a agonia dos refugiados na busca da fuga.

No final de julho, estudantes e rabinos da ieshivá de Mir refugiados na Lituânia obtiveram do cônsul honorário da Holanda na capital lituana, Kaunas (Kovno), Jan Zwartendijk, papéis que, por meio de um artifício, permitiam supor que seus portadores tinham entrada garantida em Curaçao. De fato, os papéis não tinham valor de visto, mas bastaram para que o Japão, que não emitia vistos de permanência, concedesse vistos de trânsito. Quando a notícia se espalhou, multidões de refugiados correram para Zwartendijk e, em seguida, para os portões do vice-cônsul japonês em Kaunas, Chiune Sugihara.

Avisado de que os soviéticos fechariam todos os consulados até 25 de agosto, Sugihara passou todo o mês de agosto de 1940 assinando vistos de trânsito para judeus poloneses desesperados. Os números mais conservadores giram em torno de pouco mais de mil vistos, havendo quem os tenha inflacionado até a marca de 8 até 10 mil. Pelas contas de David e Artur, por mais esforço que Sugihara fizesse, o máximo que poderia ter assinado era 3 mil, ainda assim uma proeza que lhes permitiu escapar do massacre promovido pelos nazistas na Lituânia no ano seguinte.

Com a apresentação dos vistos de trânsito e alguma sorte, a NKVD, polícia política soviética, já emitia vistos de saída. “As filas eram enormes”, lembra Bóris. “Acho que nunca se saberá por que, de repente, os russos permitiram que algumas pessoas saíssem”. Provavelmente para obter divisas. Comprar no mercado negro os dólares necessários para pagar a viagem com o expresso transiberiano, que levava doze dias de Moscou até o porto de Vladivostok, custou a David um bonito relógio suíço de ouro. [...] De Vladivostok cruzava-se o agitado Mar do Japão em pequenas embarcações, feito sardinhas em lata, para a cidade portuária japonesa de Tsuruga.

De Tsuruga os refugiados se transferiam para Kobe, onde não podiam trabalhar, e o Jewcom, comitê de assistência aos refugiados, constituído de judeus radicados no Japão, dava uma ajuda que, segundo David, se resumia a 30 centavos de dólar por dia, que davam para um pão com geléia e ovo. No caso dele, que na época só comia kasher, o cardápio às vezes permitia uma batata cozida com geléia de morango. Em meados de 1941, quando o prazo dos vistos expirou e a saída do Japão se tornou obrigatória, os refugiados correram para o único lugar que não exigia vistos: a cidade aberta de Xangai.

APOIO DA COMUNIDADE

A presença judaica na China remonta ao século 10. Quando os refugiados chegaram, Xangai já possuía uma comunidade judaica organizada. Como resultado da Guerra do Ópio, em 1841, a Grã Bretanha, vencedora, obrigara o governo imperial chinês a abrir portos ao comércio internacional. A cidade foi dividida em três setores: o chinês, o Internacional (International Settlement), principalmente comercial, e o francês (Concession Française), residencial. A partir de 1843, diferentes ondas de imigrantes judeus se dirigiram àquela metrópole. Os primeiros eram originários do Oriente Médio e fizeram grandes fortunas, como os Sassoon, os Kadoori e os Hardoon. Depois vieram os russos fugindo dos pogroms e das revoluções do início do século 20 e, finalmente, os alemães, austríacos e poloneses, nessa ordem.

Os judeus do Oriente Médio e russos deram grande assistência aos refugiados do nazismo, construindo escolas, hospitais e clubes. Os judeus russos chegaram à China apenas com a roupa do corpo, mas à custa de muito trabalho e espírito empreendedor alcançaram tal sucesso que construíram as suas próprias instituições e, no período entre guerras, coletavam dinheiro para ser enviado ao ishuv na então Palestina. Em Xangai, moravam na concessão francesa e se dedicavam principalmente ao comércio de importação e exportação. “Foram os judeus russos que, em maio de 1941, organizaram o Eastjewcom, o comitê, onde eu trabalhei, de apoio material e logístico aos refugiados em Xangai”, conta Gênia.

Para Hongkew (lê-se Hon-quiú) foram os judeus alemães e austríacos na década de 1930.O bairro fora palco de lutas em 1937, na guerra entre China e Japão, da qual resultou a ocupação japonesa de Xangai. Boa parte fora queimada e era nesse cenário semi-devastado e infecto que viviam a população chinesa miserável e os cerca de 16 mil judeus alemães e austríacos. Lá, a quase totalidade dos refugiados morava precariamente nos grandes galpões  cem, duzentas pessoas amontoadas, convivendo com ratos e baratas. “Mesmo assim”, observa Gênia, “por serem cultos, os alemães tinham teatro e um time de futebol, davam concertos e as crianças freqüentavam uma escola sustentada pelos sefaradim. Eram judeus alemães a maioria dos médicos do hospital de Hongkew.”

Os judeus poloneses, últimos a chegar a Xangai, moravam na concessão francesa e tinham relacionamento muito mais estreito com os russos do que com os alemães devido, segundo Artur, à afinidade lingüística. Após a chegada dos refugiados da Polônia, as atividades editoriais se intensificaram e diversos escritores se dedicaram à publicação e divulgação da literatura ídish moderna. Russos e poloneses organizavam programas artísticos e literários em ídish no Shanghai Jewish Club (SJC), fundado por imigrantes russos provavelmente na década de 1920, na concessão francesa.

No início de 1942, David e um grupo de jornalistas de Varsóvia, entre os quais Elbaum e Svislotzky, organizaram espetáculos musicais e humorísticos que eram apresentados no SJC. Diversos nomes do meio literário, jornalístico, artístico e político em Xangai freqüentaram o programa de David na XMHA e se destacaram anos depois no cenário judaico em Israel e outros países. Um deles foi Josef Tukachinsky, que após a guerra fez aliá e seguiu carreira diplomática com o nome de Iossef Tekoa. Como embaixador, no início dos anos 1960, o casal Ruth e Iossef Tekoa ocupou com os filhos a casa − no terreno existe hoje um edifício − que servia de residência oficial de Israel no Brasil, na Rua das Laranjeiras, em frente à Hebraica.

O movimento sionista em Xangai começou no alvorecer do século 20 entre os sefaradim. Em 1945, a Organização Sionista de Xangai – ZOS (Zionist Organisation, Shanghai) contava com 1815 membros, fora outras organizações sionistas como Wizo, Poalei Tsion, Betar, Mizrahi e Brit Noar Tsioni. Já os bundistas eram “cem ou mais. Eu tinha ligação com eles porque meu irmão era um grande líder do Bund [principal partido operário judeu da Europa Oriental, anti-sionista] e chegou a ficar preso em Lubianka, Moscou”, revela Bóris. Havia escolas seculares e ieshivot, estas totalizando cerca de quatrocentos estudantes. “Os da Mir viviam muito bem, com fundos do exterior.” O ORT foi instalado em Xangai em setembro de 1941, e até julho de 1945 havia 876 matriculados em seus cursos.

“No dia 7 de dezembro de 1941, acordei com tiros de canhão. Os japoneses estavam começando a atacar o settlement, cujo porto abrigava navios ingleses e americanos. Depois foi se espalhando de boca em boca a notícia do ataque a Pearl Harbor”, lembra Bóris. Com a eclosão da guerra no Pacífico e a ocupação das áreas internacionais, os japoneses começaram a fechar o cerco aos refugiados e calaram a única voz ídish jamais levada ao ar por uma emissora de Xangai. O programa de David não chegara a completar um mês de existência.

Quando o coronel da Gestapo Josef Meisinger, o “açougueiro do Gueto de Varsóvia”, desembarcou em Xangai, em 1942, para convencer seu aliado no Eixo a aniquilar os cerca de 20 mil judeus que ali sobreviviam, o Japão resistiu, pois, de acordo com David, a sua política oficial não era anti-semita. Contudo, em 12 de fevereiro de 1943, não mais resistindo às pressões da Alemanha, as forças de ocupação emitiram uma proclamação (proclamation) obrigando todos os refugiados apátridas (stateless) que tivessem chegado depois de 1937 a se transferir para a “Designated Area”, um eufemismo para gueto, dentro de Hongkew. Cinco judeus poloneses se insurgiram e foram executados; outros, presos. “Cerca de 25 morreram de tifo devido às más condições da prisão”, lembra Artur.

Em Hongkew, David passou a dividir um quartinho com mais cinco ou seis refugiados nas dependências do Exército da Salvação, mudando-se mais tarde para Tong Shan Road, seu endereço até o fim da guerra. As condições sanitárias eram extremamente precárias e faltava comida. “Durante cinco anos eu não vi açúcar, e o arroz estava racionado. Quem tivesse muitos dólares podia comer. Mas quem tinha?”, exclama Gênia. “O que nos salvou foi a banha de porco, que os chineses desprezavam. Nós podíamos comprá-la muito barato e, com um pouco de pão, fazíamos um banquete. Havia muita avitaminose, além de tifo e, devido à falta de higiene, disenteria. Eu mesma fui quatro vezes internada no hospital com disenteria. O comitê sefaradi, constituído daquelas famílias milionárias radicadas ali havia um século, colaborou muito para tornar o gueto de Hongkew habitável, mas longe de decente, pois não havia banheiros.” [...]

De acordo com a Emigrant Residents Union, em novembro de 1944 viviam confinados no gueto, numa área de aproximadamente 2,5km2, 14.245 refugiados, sendo 8.114 da Alemanha, 3.942 da Áustria e 1.248 da Polônia (SEGUE NOS POSTS ABAIXO)

* Escrevo em lembrança de meu pai e como uma homenagem a Zwartendijk e a Sugihara, cujos gestos humanitários salvaram tantas vidas do genocídio nazista, me permitindo contar esta história (a íntegra deste artigo foi publicado no número 72 do boletim ASA, set-out de 2001)

Chineses amistosos, japonês assustador

O contato com a população chinesa local era pequeno, porém amistoso. David costumava ressaltar que eles eram muito honestos nos negócios. Artur concorda: “Os chineses sabiam que éramos vítimas do nazismo, e eles eram contra o Japão e a Alemanha. Fazíamos muito bons negócios”. Se o convívio com os chineses era bom, o mesmo não se aplicava aos japoneses, que restringiam a liberdade de movimento dos judeus. Quatro oficiais eram encarregados de controlar a entrada e saída do gueto, sendo o principal na hierarquia o oficial da Marinha T. Kubota, a quem Artur classifica como um homem justo. Um outro funcionário, porém, um sádico de nome Goya, contribuía para infernizar ainda mais a vida dos refugiados.

David ria (tantos anos depois já ficava fácil rir da situação) quando lembrava que Goya, de estatura muito baixa, dava vazão ao seu complexo subindo em cima da mesa para dar bofetadas nos refugiados que faziam filas quilométricas diante do escritório dele para resolver questões burocráticas. Soltava tapas e berrava: “Eu sou mais alto que você, eu sou o rei dos judeus.”

Daí que o special pass, documento carimbado por Goya que permitia ao refugiado sair da “Designated Area” para trabalhar no settlement, passou a ser chamado ironicamente de “petchl (tapinha, em ídish) pass”. Artur não esquece: “Eu tive um caso muito desagradável com aquele meshúguener. Por ser estudante universitário, havia obtido um documento de isenção (exemption) que me autorizava a residir na concessão. Mas, ao levar o documento de isenção para a renovação anual, Goya o rasgou diante dos meus olhos. Fiquei sem documento, morando na concessão ilegalmente, desesperado. Quem me forneceu outro papel foi Kubota.”

Em 18 de julho de 1945, a Força Aérea americana bombardeou a rádio e uma fábrica de munições japonesas em Xangai. Algumas bombas atingiram Hongkew. Morreram 2 mil chineses e 31 refugiados judeus, dos quais oito ou nove eram poloneses. David, Artur e Gênia perderam amigos nesse ataque. Imediatamente após o lançamento da bomba atômica sobre Hiroxima, em agosto de 1945, muitos japoneses começaram a abandonar Xangai. A situação após a rendição incondicional do Japão era, no dizer de Artur, sui generis: os japoneses, embora derrotados, foram incumbidos pelos americanos de continuar ocupando Xangai até que o exército nacionalista de Chiang Kai Shek conseguisse chegar para assumir o controle da cidade. Seguindo uma disciplina rígida, mesmo após os ataques atômicos, os soldados, armados, não permitiram desordens nem roubos.

Em 1946 os refugiados começaram a abandonar Xangai, com destino principalmente aos Estados Unidos, Israel e Austrália.

Os personagens no Brasil

Bóris Stycer rumou para os Estados Unidos no último navio, o S.S. Gordon, em 19 de maio de 1949, dez dias antes de Mao Tse Tung entrar em Xangai. Veio para o Rio de Janeiro em 1960, quando se casou com Sonia. O casal tem dois filhos e mora no Leblon.

Artur Marceli Gotesman embarcou para os Estados Unidos em setembro de 1946 e veio para o Rio de Janeiro em 1954. Trabalhou com importação e exportação e mora em Copacabana.

Gênia Rosenstein saiu de Xangai em junho de 1946 para a Austrália. Em 1960 veio para o Rio de Janeiro, onde se casou pela segunda vez, e trabalhou primeiro no Hias e depois na Universal Pictures. Como sua irmã, Mina Stark, mora no Flamengo.

Iossef Tekoa, depois de servir no Brasil, foi embaixador de Israel na União Soviética e nas Nações Unidas. Quando encerrou a carreira diplomática foi nomeado reitor da Universidade do Neguev. Morreu prematuramente.
Goya foi condenado a vários anos de prisão como criminoso de guerra.

Chiune (Sempo) Sugihara foi demitido pelo Ministério das Relações Exteriores japonês em 1947. Nos últimos anos surgiram versões de que ele era, na verdade, um agente secreto a serviço não se sabe bem se do próprio Japão, se da Polônia ou da União Soviética. A mais convincente e amplamente aceita, porém, continua sendo a de que era um jovem diplomata que agiu desinteressadamente, salvando judeus das mãos dos nazistas por puro sentimento de solidariedade. Em 1985foi proclamado “um dos justos entre as nações” pelo Iad Vashem. Morreu em 1986.

Jan Zwartendijk voltou para a Holanda depois que os soviéticos fecharam seu consulado. Morreu em 1976. O Iad Vashem o proclamou “um dos justos entre as nações” em 1997.

David Markus partiu de Xangai em 12 de dezembro de 1946 no navio francês André Lebon. Tentou entrar na Palestina do Mandato Britânico, sem sucesso. Veio para o Rio de Janeiro em 1951. De seu casamento com Lula Weigler nascemos eu e meu irmão, Paul. Foi redator e depois proprietário do jornal ídish fundado em 1929 Imprensa Israelita-Ídishe Presse, que saiu de circulação em 1988. Em 1955 fundou, na Rádio Mundial, o programa radiofônico diário A Voz Israelita, que foi ao ar até 1983 e no qual, no final da década de 1960, estudante de segundo grau, iniciei-me no jornalismo. Simultaneamente foi, durante décadas, correspondente dos jornais Maariv, de Tel Aviv, Jewish Chronicle, de Londres, e Forverts, de Nova York, assim como da Jewish Telegraphic Agency, de Nova York. Morreu em 27 de maio de 2000.

7.8.08

Frase de Siné provoca guerra verbal na França



Apesar do verão e das férias coletivas, os franceses envolveram-se com todas as armas retóricas na polêmica em torno de um comentário de Siné, cartunista e colunista do jornal satírico Charlie Hebdo. Siné foi demitido após escrever uma nota sobre o noivado do jovem Jean Sarkozy, filho do presidente, com a milionária herdeira judia Jéssica Sebaoun-Darty. Comentando o boato de que Jean, que começa a fazer carreira política, vai se converter ao judaísmo para se casar, Siné fez uma piadinha que alguns judeus apontam como anti-semita. “Ele vai se dar bem na vida, esse garoto!” escreveu.

A demissão do cartunista, 79 anos, símbolo de um humor francês iconoclasta e anárquico, que desconhece hierarquias, foi uma surpresa, até porque o Charlie Hebdo ficou conhecido por sua irreverência e defesa da liberdade de expressão (defendeu, por exemplo, a publicação das charges de Maomé, que levaram o autor a ser ameaçado de morte por radicais islâmicos). Siné não admitiu demitir-se e desafiou seus críticos em artigo na revista Le Nouvel Observateur: “Eu nunca fui anti-semita, não sou anti-semita e nunca serei anti-semita”, afirmou. “Condeno categoricamente aqueles que o são, mas tampouco respeito aqueles, judeus ou não judeus, que lançam essa palavra obscena na cara dos adversários para desacreditá-los, pois é óbvio que essa acusação é o supremo insulto desde o Holocausto. Isso está ficando realmente insuportável!”

O jornalista Claude Askolovitch, que lidera as hostes anti-Siné, diz que, por trás da frase, existe a idéia preconcebida de que todos os judeus são poderosos e privilegiados. Outro comentário de Siné, de que preferiria uma mulher muçulmana com véu a uma judia depilada, foi mais uma gota d’água no copo das acusações mútuas.
O velho cartunista está sendo amplamente apoiado por abaixo-assinados e cartas-abertas publicadas na Internet, em sites visitados por centenas de milhares de pessoas, que acusam o jornal de não ser mais o mesmo e ter aderido a uma “caça às bruxas”.

Entre os que concordam com as críticas a Siné está o famoso filósofo Bernard-Henri Levy, que acha que é preciso, sim, denunciar qualquer insinuação baseada em estereótipos raciais, ainda que feita com aparente leveza. Em artigo para o Le Monde, ele afirmou que « a crítica das religiões, de todas as religiões, à maneira de Voltaire, é uma coisa – sadia, bem-vinda, útil a todos e em particular, talvez, aos próprios fiéis. O racismo, o anti-semitismo, são outra coisa – odiosa, indesculpável, mortal para todo mundo e que não se pode, em nenhuma hipótese, confundir com a primeira”. O que conta são as palavras, diz o filósofo. E, além das palavras, também contam a História, a memória e o imaginário que elas veiculam.

A coluna de Bernard Henri Levy pode ser lida em www.lemonde.fr/archives /article/2008/07/21/de-quoi-sine-est-il-le-nom-par-bernard-henri-levy_1075542_0.html

Em busca de solução para a mulher aguná

Um grupo de rabinos ortodoxos reuniu-se em segredo na Universidade de Manchester, Inglaterra, há duas semanas, para discutir soluções para as mulheres que não conseguem obter o divórcio: a notícia, do Haaretz, informa que o grupo, que incluía Shlomo Daichovsky, o juiz mais antigo da suprema corte rabínica em Jerusalém, busca redigir um adendo para a ketubá, o contrato matrimonial judaico, que possibilitaria anular o casamento se o marido recusar-se a conceder o divórcio. Desse modo, a esposa não ficaria para sempre na condição de aguná (literalmente, acorrentada) e poderia se casar novamente.

Segundo organizações femininas, há milhares de mulheres, em Israel e outros países, que tiveram o divórcio recusado pelos maridos. Não vivem mais com eles, mas não conseguem refazer suas vidas de acordo com a lei judaica, pois esta diz que continuam presas pelo contrato. Entre as alternativas consideradas na reunião, e descartada por ser muito ousada, estaria a de permitir que rabinos desconsiderassem o contrato e liberassem, em alguns países, o casamento civil da mulher aguná. Outra idéia foi a de introduzir acordos pré-nupciais impondo multas aos maridos que se recusarem a dar o divórcio. Esse tipo de acordo já está em pleno uso nas comunidades ortodoxas dos EUA.