1.3.09

O poder da propaganda nazista




A primeira imagem é de um cartaz do filme O Judeu Errante, de 1940.
O segundo poster informa: "Ele é o culpado pela guerra" (1932).
E o terceiro: "Por trás do poder inimigo, o judeu" (1942).


Reconhecer o risco do antissemitismo faz parte de qualquer agenda judaica. Mas um mínimo de bom senso recomenda desconfiar dos exageros que beiram o absurdo – como os e-mails que garantem que a França está se tornando um país inóspito para os judeus, ou que a Europa está às vésperas de ser dominada por bandos de nazistas enlouquecidos.

Como disse Freud, às vezes um charuto é apenas um charuto; e um incidente pode ser apenas um incidente. Entender isso não significa desprezar a maré montante dos chavões que até pouco tempo atrás eram típicos da direita e do nazi-fascismo e hoje são proclamados por certos setores da esquerda. À falta de outras utopias no horizonte, tais setores afirmam com insistência a “boa nova” de que há, no glorioso porvir dos povos árabes, uma iminente revolução libertadora posta em perigo pelos....judeus. Claro, quem senão os judeus para atrapalhar a vida dos outros?

Tudo isso a propósito da didática exposição que está no Museu do Holocausto, em Washington, intitulada: “State of Deception: The Power of Nazi Propaganda” [Estado de embuste: o poder da propaganda nazista]. As caricaturas foram poderosas armas de convencimento de milhões de pessoas assombradas pela crise econômica pós-1929. Funcionaram. Se os judeus eram mesmo tão pérfidos como a propaganda nazista os mostrava, então qualquer pacato cidadão alemão ainda não convencido rapidamente poderia admitir a justeza das políticas "necessárias" para que enfim chegassem os novos tempos anunciados pelo Terceiro Reich.

O poster que culpa os judeus pela guerra, por exemplo, é de 1932, quando os nazistas estavam em ascensão e eram o segundo maior partido no parlamento alemão.

Em artigo sobre a exposição no New York Times, Edward Rothstein diz que a propaganda nazista não apenas distorceu a realidade para costurar cuidadosamente um argumento comprovando a vilania judaica; ela recriou a realidade, aproveitando antigas crenças míticas sobre o caráter não humano e assassino dos judeus e incitando, portanto, à aceitação de qualquer ato violento contra eles. Acho que nada de sequer longinquamente comparável acontece hoje, mas não custa ficarmos atentos às variadas xenofobias (e não só contra nós) que aparecem por aí.

De Villa-Lobos para Israel



Um facsímile de Odisséia de uma Raça (Poema Sinfônico), de Heitor Villa-Lobos, composto em 1953, por ocasião do quinto aniversário do Estado de Israel, faz parte agora do acervo do Museu Judaico (doação de Adolfo Berditchevsky). A obra foi apresentada em primeira audição mundial em Haifa, pela Filarmônica de Israel, sob a regência de Michael Taube, em 1954. Quem sabe alguém se anima a repetir a dose, aqui, neste ano de tantas homenagens ao compositor pelo cinquentenário de sua morte?

No final da partitura, o compositor adicionou três linhas ao povo judeu (ele falou em raça, equívoco comum na época....): “Na formação do Universo, Deus criou uma raça heróica que viveu e sofreu, mas venceu em Israel”.

O consultor musical do Museu Villa-Lobos, Marcelo Rodolfo, acredita que o original da partitura tenha sido doado ao Estado de Israel. Ninguém sabe onde foi parar. O Museu, em Botafogo, está digitalizando as obras do compositor e merece uma visita. Ao vivo ou no site http://www.museuvillalobos.org.br/

6.1.09

Oriente Médio: o caminho da paz não passa pelo maniqueísmo, por Bernardo Sorj*

[ este artigo foi postado em 4 de janeiro no site do prof. Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE]

Compreender sem simplificar

O conflito no Oriente Médio é complexo. Aqueles que procuram transformá-lo num filme de Hollywood no qual o mocinho e o bandido são claramente identificáveis e em que um lado representa o bem e o outro lado o mal estão fazendo um desserviço à verdade e à causa da paz.

Como em geral acontece com os dramas históricos, o conflito no Oriente Médio é a conseqüência não-intencional de projetos humanos em que cada ator social procura realizar seus próprios objetivos, que terminam colidindo com os de outro ator. Tendo como base o drama de dois povos reivindicando a mesma terra, as lideranças políticas de ambos os lados acumularam erros que alimentaram a desconfiança e o extremismo no interior de cada povo, dificultando ainda mais o caminho da paz.

Que erros foram esses? Sem entrar em detalhes históricos que fugiriam aos limites deste curto artigo, podemos indicar, nas últimas décadas, do lado dos governos israelenses, a ocupação militar e a expansão constante das colônias na Cisjordânia e, do lado das lideranças palestinas, a conivência com o terrorismo e a ambigüidade em relação à plena aceitação da existência do Estado de Israel.

Criticar sem ofender nem mentir

O caminho da paz exige a comunicação e o reconhecimento da humanidade de todos. Quem quer a guerra vê o demônio no outro. Desumanizar o adversário, em algum momento, justifica a sua destruição. Durante cinco anos morei em Israel e lutei com meus colegas árabes pela paz e contra a política israelense de colonizar os territórios conquistados na guerra de 1967. Na época, enfrentei com meus colegas os políticos israelenses que procuravam assemelhar Arafat a Hitler e o movimento palestino, ao nazismo. Hoje sofro quando vejo grupos pró-palestinos fazerem o mesmo em relação ao sionismo.

Dizer que o sionismo equivale ao nazismo é uma mentira deslavada, uma agressão moral. E, como tal, produz do lado israelense e judeu uma reação defensiva que alimenta o sentimento de incompreensão e a incomunicação. Sejamos claros: Hitler exterminou sistematicamente todos os judeus que se encontravam nos territórios ocupados pela Alemanha nazista. Acontece que, no Estado de Israel, em l949, viviam 120.000 árabes. Hoje, eles são mais de um milhão. Calcula-se em torno de 500.000 os refugiados árabes da guerra de 1948. Eles e seus descendentes somam de 4 a 5 milhões. Não houve, em nenhum sentido possível do conceito, um genocídio. Não se trata de negar o sofrimento pelo qual passou e passa o povo palestino. Mas não desvalorizemos os fatos históricos, respeitando os sentimentos daqueles que passaram pela experiência do holocausto. E lembremos, sobretudo, que as palavras não são ingênuas. Quem fala de genocídio transforma o outro em genocida, o que permite que seja tratado como tal.

Direitos humanos ou instrumentalização política?

Entendo a simpatia e solidariedade com a causa palestina, seja do mundo árabe, de descendentes de árabes e muçulmanos e de pessoas de boa vontade identificada com o sofrimento palestino. Este sentimento é compreensível, assim como é a preocupação de judeus e não-judeus com a segurança de Israel. Mas em nenhum dos dois casos é aceitável o apoio acrítico a lideranças radicais, seja israelenses que não se dispõem á devolver os territórios conquistados, seja palestinas que sustentam um programa político que propõe a destruição do Estado de Israel.

Preocupa-me e dói a manipulação política do conflito por intelectuais e organizações que, no Brasil e no exterior, assumem uma posição antiisraelense primária, em geral ignorante da história da região que, por momentos, beira ao anti-semitismo e cuja única motivação é uma ideologia política que associa Israel aos Estados Unidos. Para tais grupos, os Estados Unidos são o grande inimigo. Ergo, quem está associado com o diabo, diabo é. Preocupa e dói porque esses indivíduos e grupos manipulam a bandeira dos direitos humanos, porém não têm nenhum compromisso real com o sofrimento humano. Porque, se tal sentimento existisse, estariam também fazendo panfletos e circulando com as bandeiras do povo checheno, curdo, sudanês ou tibetano, que custaram e continuam cobrar a vida de milhões de pessoas.

Mas a agenda destes grupos não é a dos direitos humanos nem a da paz do Oriente Médio. É uma agenda política que quer ver o circo pegar fogo para confirmar os preconceitos ideológicos. É, portanto, uma agenda perigosa, irresponsável e desumana.

O povo palestino e o mundo árabe, Israel e o povo judeu não são homogêneos
No ardor da luta contra o ataque militar israelense, parte da mídia e de grupos pró-palestinos e pró-Israel transmite a imagem de que a causa palestina e o mundo árabe e muçulmano, assim como Israel e o povo judeu, constituem uma unidade. Transformam um conflito político nacional no qual estão em jogo interesses e estratégias terrenas em um conflito religioso. Nada mais longe da realidade. O mundo árabe está – e sempre esteve – dividido.

Para cada governo árabe, a causa palestina ocupa um lugar específico no seu projeto político interno e externo. Afinal, não podemos esquecer que o território reivindicado pelo povo palestino para a criação de seu Estado nacional esteve, entre 1948 e 1967, nas mãos da Jordânia e do Egito, não de Israel. No lado israelense, a divisão política interna sempre foi explícita e, embora as relações entre boa parte da diáspora judaica e Israel sejam de solidariedade, isso não significa nenhum alinhamento ou co-responsabilidade com os governos eleitos pelos cidadãos de Israel (inclusive pelos 20% de árabes israelenses).

Lembrar que não vivemos em mundos culturais formados por blocos coesos é fundamental. O fanatismo e o extremismo de cada lado se alimentam mutuamente. Falemos claro: nem o extremismo palestino nem o israelense têm interesse em negociações políticas, pois nenhum deles está disposto a abrir mão de seus sonhos maximalistas. O caso do assassinato de Rabin é exemplar: morto por um extremista israelense, sua obra de pacificação não pôde ser completada por Shimon Peres, pois, apesar de sua enorme vantagem inicial na campanha eleitoral, a onda de atentados terroristas palestinos levou ao poder um primeiro- ministro da extrema direita.

O que será?
Nenhum povo tem o monopólio da moral nem está ao abrigo de entrar num ciclo de destruição. Quem quiser procurar na história fatos favoráveis à versão de cada lado os encontrará em quantidades monumentais. O caminho da paz exige um doloroso esforço de abandono dos mitos e ilusões que cada parte elaborou sobre si mesmo e o outro. O passado não pode ser esquecido, todavia será em torno de uma visão do futuro que um novo presente poderá ser construído.

Penso que nós, que não participamos diretamente da vida política dos países da região devemos lutar pelo essencial: apoiar a abertura de todos os canais de comunicação, de toda iniciativa de paz. Nós, que temos a sorte de viver no Brasil, um país que, apesar dos imensos problemas sociais, é um exemplo para o mundo de convivência prazerosa entre as diversas religiões, devemos nos esforçar por alimentar o diálogo, a esperança e a abertura de espírito, não permitindo que a intolerância e o ódio nos contaminem.
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Bernardo Sorj é professor titular de Sociologia da UFRJ e Diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais

4.1.09

De guerra, cessar-fogo e divergências


[Artistas e Guerra, Saul Steinberg, 1969]

A decisão israelense de enviar tropas terrestres, tanques e artilharia a Gaza, depois de oito dias de ofensiva aérea, tem levantado uma questão, entre outras, sobre o futuro próximo: a invasão vai destruir a infra-estrutura do Hamas e pôr fim aos ataques por foguetes a Israel? As previsões variam.

Perguntas instigantes, que não recorrem a adjetivos bombásticos, ajudam a refletir. Como as que foram feitas no artigo dominical do diretor da sucursal do The New York Times em Jerusalém, Ethan Samuel Bronner: é possível interromper a chuva de foguetes enquanto o Hamas mantiver o poder político em Gaza? Se o governo israelense acha que não é possível, então o verdadeiro objetivo da operação militar é destruir completamente o grupo, qualquer que seja o custo em vidas? Por outro lado, como tirar do poder um grupo que tem hoje de 15 mil a 20 mil homens armados?

Mesmo que a queda do Hamas venha a acontecer, depois de semanas ou meses de guerra, com baixas impactantes, ainda haverá perguntas incômodas, diz o jornalista do NYT. “Quem assumirá o controle [de Gaza] quando tudo isso terminar?” é uma delas.

O acirramento da disputa entre Fatah e Hamas é um dos desdobramentos da ofensiva. Outro desdobramento, segundo Khalil Shikaki, diretor do Palestinian Center for Policy and Survey Research, ouvido pelo jornal Washington Post, é o risco de que a situação se deteriore rapidamente na Cisjordânia, com a frustração e a ira voltando-se contra a Autoridade Palestina.

Também há divergências entre os que apóiam Israel, ainda que a necessidade de defesa seja uma unanimidade e ninguém engula a história, divulgada pela mídia européia, de que o Hamas usa foguetes "artesanais". Por exemplo, o Meretz, partido de esquerda israelense, defendeu a ofensiva no primeiro momento, ainda que depois tenha proclamado a urgência de um cessar-fogo, devido ao risco de Israel afundar-se no "pântano lamacento de Gaza".

Segundo notícia publicada no jornal Maariv, uma candidata árabe-palestina do Meretz desistiu de concorrer às próximas eleições devido ao apoio do partido aos ataques contra o Hamas em Gaza. Um membro do partido, Abu Vilan, afirmou: "O Meretz não é pacifista. Quando cidadãos do Estado de Israel são atingidos pelo terror, deve se dar uma resposta com toda força.... O Meretz entende que Israel deve defender seus cidadãos, sejam judeus ou árabes."

Essa informação está no excelente blog em português http://urishalaim.blogspot.com/ , de Uri Lam (desde Jerusalém). Uri é psicólogo, tradutor de livros judaicos, co-editor da coleção judaica “Povo do Livro”, em parceria com a Ed. Via Lettera. Outro blog em português, diretamente de Beeer Sheva, o de André Hamer: http://namiradohamas.blogspot.com/. Ambos têm atualizações diárias que vale a pena ler, um outro lado para o leitor cansado de pensamentos maniqueístas que nada acrescentam à compreensão dos fatos.

Reproduzo a seguir dois artigos com posições diferentes. Primeiro, um artigo para o jornal Haaretz, de Ari Shavit, um forte opositor dos assentamentos israelenses, que explica porque considera justa a guerra atual. No post seguinte, está o comunicado do grupo judaico norte-americano J Street, um dos primeiros a proclamar a necessidade de uma ofensiva diplomática que impeça a continuação dos ataques palestinos mas também evite a escalada bélica, sob o argumento de que isso é que vai garantir a segurança de Israel a longo prazo.

2.1.09

A justificativa de Shavit para a "guerra justa"

Diz Ari Shavit sobre a ofensiva:

[...] Justa, porque no verão de 2005 Israel destruiu todos os assentamentos judaicos na Faixa de Gaza e retirou-se unilateralmente para a fronteira internacional. Justa porque de 2006 a 2008 a autoridade palestina na Faixa não aproveitou o fim da ocupação para construir-se e construir seu futuro e, em vez disso, repetidamente atacou Israel dentro da Linha Verde.

Justa, porque por três anos consecutivos o Estado de Israel se conteve e agiu de maneira comedida. Justa, porque nenhum país no mundo pode aceitar por um longo período uma situação em que seus cidadãos são ameaçados e sua soberania violada. Justa, porque não há chance de paz no Oriente Médio se o Estado judeu for visto como uma presa fácil sangrando na água e atraindo os tubarões.

A operação é uma campanha trágica. Trágica, porque está causando a morte de centenas e ferindo milhares. Trágica, porque está causando danos físicos e emocionais a palestinos inocentes, inclusive mulheres e crianças. Trágica, porque como toda guerra, esta cria vicissitudes humanas intoleráveis e sofrimento pungente.

Mas a tragédia advém diretamente do fato de que os palestinos não aproveitaram adequadamente a oportunidade histórica que lhes foi concedida em 2005. Advém do fato de que os palestinos usaram mal o auto-governo quando o obtiveram, pela primeira vez na sua História. E advém do fato de que a necessidade palestina de destruir Israel é ainda mais forte do que sua necessidade de construir a Palestina.

Os israelenses que odeiam Israel chamam a operação de crime de guerra. Registram os nomes da cada palestino morto, denunciam cada ação israelense e retratam seu Estado como opressor. Enquanto os egípcios afirmam que o Hamas é o principal responsável pela tragédia de Gaza, os israelenses que odeiam Israel jogam toda a responsabilidade em seu governo e nos militares. Enquanto a comunidade internacional compreende, em silêncio, que um Estado soberano tem a obrigação de proteger as vidas de seus cidadãos, os israelenses que odeiam Israel acreditam que vidas israelenses podem ser perdidas.

Enquanto os fatos básicos indicam que a violência no sul tem origem nas ações desprezíveis de uma organização extremista que transformou a Faixa num distrito do terror, os israelenses que odeiam Israel persistem em odiar seu povo e sua pátria e defendem a moralidade da agressão destrutiva do Hamas.

Ninguém está conclamando a que sejam odiados os israelenses que odeiam Israel. Ao fim de cada dia, a posição deles se mostra patética. Sua incapacidade de demonstrar compaixão pelos israelenses de Beersheva, Ashdod, Ashkelon e Sderot mostra que eles têm algum grau de crueldade. Sua incapacidade de ver os árabes que disparam foguetes como responsáveis pelas próprias ações mostra que não estão isentos de paternalismo.

A verdadeira motivação dos israelenses que odeiam Israel não é a preocupação genuína pelos palestinos, mas é, com efeito, uma forma reversa de racismo. Ao perdoar o fascismo palestino, eles não desprezam apenas os israelenses, mas também os palestinos moderados e que prezam a liberdade. Os que culpam Israel por tudo e absolvem os palestinos de tudo não servem a causa da paz nem ajudam a pôr fim à violência e à ocupação.

É possível que, após a campanha aérea inicial e a destruição dos túneis, a operação devesse ter sido suspensa. É possível que a trégua proposta pela França deva ser agora adotada, e uma chance final deva ser dada à lucidez palestina. Mas os que rejeitam o conjunto da operação estão cegos à realidade e ao fracasso moral.

Os próximos dias serão difíceis. Pode haver erros, talvez complicações, talvez até mesmo vítimas. Mas por essa mesma razão este não é o momento para uma campanha de ódio contra os líderes de Israel, seus comandantes, soldados e pilotos. Justamente o contrário. Este é o momento de fortalecer o Primeiro-Ministro Ehud Olmert, que está provando ser um líder nacional respeitado.

Este é o momento de apoiar os comandantes, soldados e pilotos que trabalham dia e noite para conduzir uma guerra difícil, complexa e inteiramente justa. Este é o momento de Israel finalmente agir como uma nação madura que se protege com sabedoria e contenção.

Em defesa "da razão e da moderação"

Os quatro grupos norte-americanos pró-Israel que defendem o direito de ataque às instalações do Hamas em Gaza, mas exortam o próximo governo a estabelecer negociações diplomáticas imediatas com as partes envolvidas, para evitar uma escalada militar contra-producente a longo prazo, são J Street, Americans for Peace Now, Brit Tzedek v'Shalom e Israel Policy Forum.

Esses grupos vêm se fortalecendo nos últimos anos e vão na contra-mão do que parecia, aos olhos da opinião pública, ser um senso comum judaico favorável a todas as manifestações de força militar israelense. Eles abrigam uma vasta gama de pacifistas, inclusive religiosos, liberais, gente de centro, centro-esquerda e esquerda. Como em outros países, as instituições comunitárias guarda-chuva, Jewish Council for Public Affairs e Conference of Presidents of Major American Jewish Organizations, dão apoio irrestrito à ofensiva bélica.

O porta-voz do Americans for Peace Now, Ori Nir, disse: “Não vemos a questão da operação israelense como um tema preto-e-branco e inequívoco”. O grupo enviou um comunicado aos seus mais de dez mil ativistas, exortando-os a escrever para Bush e Obama (uma tradição norte-americana) defendendo a solução política e diplomática para o conflito.

Abaixo, o comunicado inicial do J Street. Quem assina é o diretor on line do grupo, Isaac Luria, cuja esposa fez estudos rabínicos em Israel e que demonstra sua perplexidade diante da cobrança de uma posição imediata. Como se o mundo fosse tão simples!!! Luria tem o mesmo nome do famoso erudito, cabalista e místico (1534-1572) que influenciou de modo marcante a vida religiosa e os costumes litúrgicos judaicos.

Há 24 horas as Forças de Defesa de Israel atacaram a Faixa de Gaza, deixando centenas de mortos e feridos – e impelindo ainda mais o persistente conflito israelense-palestino rumo a uma rota de violência interminável.

Senti uma pressão imediata de amigos e familiares para tomar partido. Eu opinava que as ações de Israel eram plenamente justificadas ou desproporcionais? O Hamas atraiu aquilo sobre si ao lançar foguetes e provocar Israel ou os ataques são um ato de agressão contra um povo preso na armadilha da miséria e da pobreza? Eu não era capaz de ver quem tinha razão e quem estava errado?

Nesse momento de profunda crise, J Street quer demonstrar que, entre aqueles que se importam com Israel e sua segurança, há um grupo que defende a razão e a moderação. Há muitos que reconhecem elementos de verdade em ambos os lados dessa divisão e sabem que aproximá-los exige um forte engajamento e liderança dos EUA.

Israel tem um lugar especial no meu coração. Vivi lá no ano passado, enquanto minha mulher estudava para se tornar rabina. Mas reconheço que nem os israelenses nem os palestinos têm o monopólio do certo ou do errado. Se nada há de “certo” em fazer chover foguetes sobre famílias israelenses ou enviar atacantes suicidas, tampouco nada há de “certo” em punir um milhão e meio de sofredores habitantes de Gaza por causa das ações dos extremistas que vivem entre eles. O que é preciso agora é ação imediata para interromper a violência antes que ela saia do controle.

Os Estados Unidos, o Quarteto e a comunidade mundial não devem esperar – como fizeram na crise Israel-Líbano de 2006 – que as semanas passem e mais centenas ou milhares de pessoas venham a morrer antes de intervirem. É preciso que seja dado um fim urgente às novas hostilidades, encerrando completamente as operações militares, inclusive o lançamento de foguetes a partir de Gaza, o que permitirá que entrem em Gaza alimentos, combustível e outros bens necessários á vida civil.

A necessidade de comprometimento diplomático vai além de um cessar-fogo a curto prazo. Oito anos da negligência e da diplomacia ineficaz do governo Bush levaram-nos diretamente a um momento em que as perspectivas de uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino estão em compasso de espera e com elas as perspectivas de sobrevivência de Israel a logo prazo como um Estado judeu democrático.

Em seguida a um cessar-fogo renegociado, exortamos o próximo governo Obama a liderar um rápido e sério esforço para alcançar uma solução diplomática abrangente para os conflitos israelense-palestino e árabe-israelense.

[...] Nossos objetivos devem ser um Oriente Médio que se mova para além dos conflitos sangrentos, um Israel seguro e aceito na região, e uma América segura graças à redução do extremismo e do fortalecimento da estabilidade. Nenhum desses objetivos se alcança com a escalada [do conflito].

Até mesmo no calor da batalha, como amigos e apoiadores de Israel, precisamos lembrar que só a diplomacia e as negociações podem pôr fim aos foguetes e ao terror e trazer a Israel segurança e paz a longo prazo. Os políticos norte-americanos já estão ouvindo as vozes daqueles que só enxergam um lado. Ajude-nos a dar voz ao grande número de norte-americanos que entendem que a justiça só será feita quando os direitos e as reivindicações de ambos os lados forem reconhecidos e for elaborada uma solução pacífica de dois Estados para esse conflito que já transcorre há um tempo longo demais.

Sabemos que muitos formuladores de políticas concordam conosco privadamente, porém hesitam em expressar seus pontos de vista em público, por ouvirem apenas o que dizem os extremistas. Esse é nosso momento de mostrar que há um apoio político real para afastar do Oriente Médio uma abordagem estreita, do tipo “nós contra eles”. A situação em Gaza não poderia ser mais urgente. Quem sabe quantas vidas mais serão perdidas antes que termine esse round de violência? Quando terminar, olharemos para trás e diremos que se tivéssemos falado antes mais vidas poderiam ter sido salvas, mais danos poderiam ter sido evitados?

Tanto quanto consigo lembrar, aqueles que enxergam o mundo em preto e branco têm prevalecido sobre aqueles que vemos as nuances do cinza. Espero que você nos ajude a mudar essa dinâmica, enviando a todos os seus conhecidos essa mensagem, depois de ter assinado nossa petição.

Muito obrigado por unir-se aos nossos esforços nesse momento difícil. Juntos, podemos conseguir o fim desse round de violência, retomar o cessar-fogo e levar a cabo um sério movimento em direção à paz entre Israel e o povo palestino.

- Isaac Luria
Diretor Online
J Street
28 de dezembro, 2008

Responsabilidade partilhada

Numa sociedade livre, alguns são culpados, mas todos são responsáveis

A frase é do rabino Abraham Joshua Heschel (1907– 1972), filósofo, erudito, poeta e ativista social nos Estados Unidos. Ele participou da marcha pelos direitos civis em Selma, ao lado de Martin Luther King, de quem foi amigo. Heschel foi um raro caso de personalidade carismática capaz de conciliar reflexão, ação, ética, profundidade espiritual e luta em prol de justiça para todos (www.heschel.org.il). Não se considerava um "eleito", mas alguém que estava na Terra para servir ao próximo.

Estereótipos são didáticos







O cenário cultural de Chicago, a cidade de Barack Obama, nunca é frio como a cidade. Um exemplo é o Museu Judaico, ou Spertus Museum (homenagem aos irmãos Maurice e Herman Spertus), que aposta em desafiar o óbvio. Em 2008, uma exposição de mapas antigos e contemporâneos da Palestina acabou fechada por pressão de alguns financiadores da instituição, que não gostaram da aparente defesa de direitos palestinos a terras hoje ocupadas por colonos israelenses. Agora, está em cartaz (até 18 de janeiro) a mostra “Twisted Into Recognition: Clichés of Jews and Others”, que já passou pelo Museu Judaico de Berlim e o Museu Judaico de Viena.

Uma das obras que chocaram alguns foi essa Barbie acima, de Jen Taylor Friedman, usando talis and tefilin (Tefillin Barbie). Outra foi a instalação de Tamir Lahav-Radlmesser com amostras de pelos púbicos. A autora quis fazer um contraponto a uma exposição de 1939 em que o departamento de antropologia do Museu de História Natural de Viena exibiu pêlos púbicos retirados de 500 judeus.

Der Giftpilz: ein Stürmerbuch für Jung und Alt ("O Cogumelo venenoso: um livro da SS para Jovens e Velhos”) é a ilustração da edição de 1938 de um livro didático alemão. Os meninos observam o colega que mostra o número 6, assim explicado pela legenda: “Die Judennase ist an ihrer Spitze gebogen. Sie sieht aus wie ein Sechser,” ou, “O nariz judaico é curvado no alto. Parece um seis”. A bengala, vienense, de cerca de 1900, fala por si só...

O prédio do Spertus Museum tem, além das galerias, teatro com 400 lugares, biblioteca, salas de aula, um centro infantil interativo e um centro didático para professores e pais. A exposição atual atrai um público diversificado, que habitualmente não freqüenta galerias de arte. Aliás, a missão didática (biscoito fino para as massas) é, segundo a curadoria, uma das justificativas de um museu contemporâneo. Quem percorre a mostra entende logo, mesmo que pouco conheça de História, o absurdo e a brutalidade dos estereótipos, reforçados por meio de imagens e objetos, e que levam, no limite, à aceitação da perseguição e da eliminação física daqueles que parecem diferentes.

6.12.08

Presença de Leon Hirszman


Com uma projeção do longa-metragem São Bernardo , foi lançado em 4 de dezembro, no Rio de Janeiro, o segundo DVD de títulos restaurados pelo projeto Leon Hirszman. Como este não é um blog sobre cinema, não é porque São Bernardo foi um filme inesquecível que faço esse registro. É porque Leon foi uma figura de importância fundamental para o cinema brasileiro e, sempre retratando o povão em todas as suas variáveis, foi também um “mensch” (pessoa honrada, “gente”) na mais plena acepção da palavra judaica.

A estética de Leon foi influenciada por sua postura ética e uma visão humanista de esquerda construída desde a infância. Tivesse ele nascido nos EUA e a crítica talvez o qualificasse de Jewish-American (como às vezes faz com Woody Allen). Mas no Brasil, para o bem e para o mal, as origens ficam diluídas, e o “ser” judaico de Leon pouco foi abordado, até mesmo porque as questões existenciais foram relegdas a segundo plano pelas urgências políticas e sociais de sua época na América Latina. A exceção é o livro O Navegador das Estrelas (editora Rocco), de Helena Salem, emocionado e objetivo ao mesmo tempo. Helena entrevistou dezenas de pessoas que conviveram com o cineasta, inclusive suas irmãs, Shirley e Anita, e situou vida e obra de Leon sobre um significativo painel sócio-cultural.

Leon nasceu no Rio em 22 de novembro de 1937, filho de imigrantes poloneses, e estudou no Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem, na Tijuca, onde a família morava. O pai tinha uma pequena sapataria em Vila Isabel e todos os dias, na hora do almoço, a mãe pegava o bonde na rua Haddock Lobo para levar-lhe a comida recém-preparada. A convivência com as idéias de esquerda do pai (que perdeu toda a família em campos de concentração) e a religiosidade materna ajudaram-no a forjar uma atitude de aceitação dos opostos: era anti-machista, anti-preconceituoso, anti-autoritário. Dizia que o pai influenciara seu engajamento social e sua repulsa a qualquer forma de obscurantismo.

Em entrevistas, contava que acordara para o cinema em 1954, com o movimento para a liberação pela censura do filme Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos. Quando se tornou um dos fundadores da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro, em 1958, era estudante de Engenharia e fazia parte de um grupo de jovens que queria discutir e produzir um cinema brasileiro com linguagem e temática próprias, longe dos padrões hollywoodianos.

Meio século depois, dá para dizer que eles foram bem sucedidos e deixaram uma herança bendita (Leon Hirszman faleceu em 1987).

Prêmio para A Chave de Casa


Assinado por Mônica Grin e Michel Gherman, coordenadores do NIEJ, recebi o seguinte mail:

É com prazer que a coordenação do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ (NIEJ) divulga as recentes premiações de duas de nossas pesquisadoras associadas, Tatiana Salem Levy e Kátia Lerner. Tatiana ganhou o Prêmio São Paulo de literatura de melhor romance de autor estreante com o seu A Chave de Casa. Abaixo, um brevíssimo resumo do livro:

“Neta de judeus da Turquia e filha de comunistas do Brasil, a narradora recebe do avô a chave que abriria a porta da casa de Esmirna, para onde os avós fugiram durante a Inquisição (tal como os pais fugiram para Lisboa, anos mais tarde e por motivos diferentes). A autora faz desta procura pelas raízes da família o início de uma viagem de questionamento sobre si própria.”

Kátia Lerner ganhou o Prêmio Mário de Andrade, lançado pelo MinC, através do Iphan, e com apoio da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), com a sua excelente tese de doutorado "Holocausto, memória e identidade social: a experiência da Fundação Shoah.

Como já li o livro de Tatiana, vou dar um palpite: ele é ousado, instigante, bem pesquisado, bom de ler, cheio de "pertencimento". E sem aborrecidos discursos edificantes. Foi elogiado por críticos do quilate de Moacyr Amancio. É o tipo de boa literatura que o meio de origem às vezes custa a absorver. Agora, com o prêmio, tomara que os judeus também corram para comprar A Chave de Casa.

Judeus: milênios de liberdade na Índia

Em artigo no site do The New Republic (www.tnr.com/politics) Naresh Fernandes, editor do Time Out Mumbai e cristão, comenta que a história milenar dos judeus na Índia comprova a liberdade de todas as religiões no país, Os judeus indianos, que têm bastante proeminência em Mumbai, onde ocorreram os recentes atentados, nunca sofreram perseguições. Entre eles estão os Bene Israel, que acreditam descender das vítimas de um naufrágio ao sul de Mumbai, em 175 a.C. Fiéis seguidores dos preceitos religiosos, eles falam uma das línguas indianas, o marahati, as mulheres usam saris, sua dieta é à base de arroz e curry. Em Mumbai, têm uma sinagoga construída em 1796. A comunidade Bene Israel produziu vários atores de Bollywood, músicos, políticos e um de seus membros mais conhecidos foi o poeta Nissim Ezekiel.

Segundo Naresh, havia cerca de 25 mil judeus na Índia em 1947, ano da independência, e o número caiu para 5.271 in 1991, devido à aliá. Os que ficaram, diz ele, estão perfeitamente inseridos na sociedade local e têm uma relação ambígua com Israel. E, quer sejam liberais, quer sejam ultra-ortodoxos, não se identificam de maneira nenhuma com os milhares de jovens mochileiros israelenses que anualmente viajam ao país depois do serviço militar e percorrem das praias de Goa às cidadezinhas no sopé do Himalaia (onde uma das atrações é a facilidade de adquirir drogas a preço baixo).

Pilar Rahola: guerra permanente contra o anti-semitismo

A catalã Pilar Rahola foi uma das convidadas do Quinto Congresso de Estudos Judaicos, tradicional encontro organizado pela professora Helena Lewin na UERJ. Como não pude assistir a nenhuma das mesas-redondas, lembrei de uma matéria que fiz com Pilar há cinco anos, no Rio. Dizem-me que ela continua a esgrimir com contundência seus pontos de vista (considerados reducionistas por alguns críticos) contra o anti-semitismo europeu e o integrismo islãmico. O reducionismo se explica pela necessidade de produzir imagens fortes e facilmente compreensíveis. Se isso combate com eficácia o anti-semitismo, não dá para garantir, mas seus muitos admiradores entre os judeus dizem que sim.

Vejam a matéria, publicada em O GLOBO em 22/10/2204, e tirem suas próprias conclusões.

Da Catalunha com paixão
Sorriso radiante, decote profundo, metralhadora verbal que atira em todas as direções, a escritora e jornalista catalã Pilar Rahola é famosa na Europa pela paixão com que defende suas causas variadas. Aos 46 anos, essa feminista pós-moderna, ex-militante da Izquierda Republicana Catalana --- partido pelo qual foi deputada e vice-prefeita de Barcelona – corre mundo denunciando tudo o que considera injusto e perigoso. Numa noite pode estar na TV espanhola, jurando boicotar para sempre os filmes de Pedro Almodóvar, porque ele, horror dos horrores, matou sete touros para rodar Fale com Ela. No dia seguinte voa para o Rio, ou Nova York, em campanha contra o integrismo religioso islâmico, que considera a maior ameaça para a humanidade neste início de século XXI.

“Se Deus existe, é mulher, negra, lésbica e pobre” – proclama, com a segurança de filha da alta burguesia católica, mãe de três filhos, que descobriu o feminismo “não por trauma pessoal mas por solidariedade”.


Para manter o equilíbrio em meio a uma agenda superlotada (só em 2003, cruzou o Atlântico 15 vezes), Pilar Rahola corre nove quilômetros diários na esteira do ginásio instalado nos fundos da casa de Badalona, em Barcelona, enquanto assiste na telinha aos programas femininos matutinos cujos lugares-comuns desanca em colunas nos jornais El País, El Periódico e Avui. A TV faz parte do “enxoval” do segundo marido, empresário basco com quem só se casou por exigência do governo russo, quando o casal foi à Sibéria adotar Ada, a terceira filha, hoje com 4 anos.

Pilar tem outros dois filhos, Noé, 12 anos, também adotado, e Sira, 24 anos, do primeiro casamento. Viajante incansável (esteve 20 vezes no Oriente Médio, cobriu conflitos como o dos Bálcãs e a guerra Etiópia-Eritréia), gosta de promover roteiros culturais familiares pela Europa. Antes das controvertidas declarações de José Saramago sobre os judeus e o Holocausto, feitas durante visita aos territórios palestinos, Pilar seguiu com Sira, em Portugal, todo o percurso do livro Memorial do Convento, lendo em voz alta, emocionada, as descrições do escritor. Agora, não hesita em defini-lo como “o exemplo mais relevante de que alguns podem escrever como anjos e pensar como perfeitos imbecis”.

Segundo Pilar, o anti-semitismo da esquerda européia, expresso por Saramago, é uma questão mal resolvida que remonta à Inquisição. Atribui ao anti-semitismo, na esteira da crise Israel-palestinos, a condescendência do pensamento politicamente correto ante o integrismo religioso islâmico, “o maior risco vivido pelo mundo desde o nazismo e o stalinismo”. A esquerda, acusa, repete erros do passado ao flertar com uma ideologia que desafia a modernidade.

As acusações, reiteradas no Rio durante palestra no Hotel Glória, a convite do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, não vêm embaladas em sisudez. Gestos expansivos, bem humorada, Pilar se define como uma libriana veemente, igualmente pronta a bradar contra o uso político da religião e a sonhar a utopia que descreve no livro Mujer liberada, hombre cabreado (editora Planeta, 2000):

-- A grande revolução do século XXI será a descoberta do homem por si mesmo, porque o machismo destruiu a mulher e o homem. A maior revolução feminina será a revolução do homem, que precisa libertar-se de seus medos, de sua necessidade de domínio, de sua insegurança. Por enquanto não existe esse homem novo, o que existe é o homem desconcertado com a mulher que exige responsabilidade compartilhada em casa, descobriu o orgasmo e compete no mercado de trabalho. É muita coisa para ele! A mulher suportou ser dominada por dois mil anos, mas depois que se levantou não vai voltar atrás.

Graças a uma campanha de que Pilar participou ativamente, o novo Código Penal da Espanha, de 1996, incluiu um artigo tipificando como delito penal a violência doméstica, antes considerada “falta” civil cuja única conseqüência era a multa, embora mate mais mulheres espanholas entre 25 e 35 anos que o câncer de mama . O “machismo criminoso” ibérico não cede facilmente. Um aspecto dele, adverte Pilar, são as touradas, responsáveis pelo fim de seu “idílio” com Pedro Almodóvar e pela ira com que os homens espanhóis a criticam:

-- Se tourada é cultura, então canibalismo é gastronomia – afirma.

Boa parte das posturas de Pilar talvez venham da valorização das mulheres em sua família, que teve membros fuzilados e empresas confiscadas durante a Guerra Civil:

-- Crescemos, eu e minha irmã, numa casa livre, onde se discutia de tudo no almoço e no jantar, embora do lado de fora existissem a educação católica e a ditadura de Franco. Aprendi com meu pai o sentimento da solidariedade. Um dia ele me disse que eu era judia, querendo dizer que assim devia me sentir para entender o que os judeus tinham sofrido.

A vida familiar incluía verões em Cadaquès, na quinta vizinha à de Salvador Dali, hoje museu, cujo muro pulava com as amigas, para conversar com o pintor. Estudante da Universidade de Barcelona, formou-se em Filologia Hispânica e Catalã, conheceu o mundo de mochila nas costas, bebeu na fonte de Simone de Beauvoir/Segundo Sexo e descobriu a dificuldade masculina de conviver com mulheres liberadas e bem sucedidas.

Para promover os direitos femininos no presente, diz, é preciso ir além do nível pessoal e defender primeiro o Estado laico. Daí o apoio à proibição do véu islâmico nas escolas francesas e a indignação com governos que proíbem o aborto legal, “o que leva milhares de mulheres à morte em abortos clandestinos”. Nenhuma fé, acrescenta, tem o direito de dar ordens a cidadãos livres. “Deuses em casa, leis na rua” é o lema do pacto republicano cujo rompimento seria trágico para o mundo, inflama-se. Em viagem recente ao Chile, comprou briga com a Igreja católica, que dificulta a aprovação do divórcio no país.

Pilar liderou a campanha que acabou tirando das livrarias da Espanha, há quatro anos, o livro em que um imã islâmico, com milhares de seguidores entre os imigrantes pobres norte-africanos, defendia o “espancamento leve” das mulheres pelos maridos em casos de “mau” comportamento.

A livre circulação no Oriente Médio de livros como o do imã – ou do Mein Kampf, de Hitler, e dos apócrifos Protocolos dos Sábios de Sião – não chega a espantar Pilar, por ocorrer numa região governada por “ditaduras despóticas e teocráticas que alimentam o fanatismo”. O que a espanta é a convivência dos europeus com os imãs mais fundamentalistas. Estes, financiados pelos sauditas, expulsaram as lideranças progressistas das organizações comunitárias islâmicas em várias cidades européias. As maiores vítimas do pensamento integrista são as mulheres:

-- Há hoje 135 milhões de mulheres vítimas de mutilação genital no mundo. Milhares de moças que vivem na Europa são enviadas todos os anos pelas famílias aos países de origem, principalmente na África, para a circuncisão do clitóris, um processo doloroso e arriscado, um crime. Por que aceitamos que isso continue? Dói-me que a dor feminina seja silenciosa e não tenha espaço na agenda política. Ainda existe lapidação feminina por adultério e isso não parece preocupar ninguém. Essa é uma das minhas broncas contra a ONU, organização tão inútil que recentemente nomeou a Líbia para presidir uma comissão de direitos humanos!

Ao mencionar a Líbia, Pilar Rahola ressalva: não sofre de islamofobia, “doença” que vitimou a jornalista italiana Oriana Fallaci. O que a jornalista catalã diz combater é “o islamismo paranóico, que pode destruir o Islã, assim como o nazismo quase destruiu a Europa e o stalinismo destruiu nossas utopias”. Acredita no sucesso de sua cruzada para que os pensadores de esquerda abandonem de vez a idéia de que os integristas, inclusive na sua vertente terrorista, representam algum tipo de rebelião dos pobres contra os ricos:

-- Na verdade, estamos diante de um fenômeno alimentado por elites milionárias e ditaduras que estão no poder há meio século e agora usam celular e tecnologia de ponta para praticar uma política medieval. O terrorismo é planejado para destruir a liberdade, não para distribui-la.

23.10.08

Samuel Rawet, o erudito suburbano de escrita extremada


Acima, passaporte com que Sura Rawet chegou ao Brasil na companhia de três filhos

Se Samuel Rawet tivesse vivido na França ou na Itália, haveria placas de bronze e ônibus de turistas literários à porta das casas de sua infância e juventude no subúrbio carioca de Olaria. Mas o “writer’s writer” de texto contundente e apaixonante, o erudito leitor de Buber e Spinoza, é por ali um ilustre desconhecido. Aliás, desconhecido – e, mais que isso, incompreendido e rejeitado -- ele também foi, durante muitos anos, pela comunidade judaica.

Como o Museu Judaico fará uma mesa-redonda sobre sua obra [dia 28, terça-feira, às 18 horas], aproveito para sintetizar aqui alguns aspectos da trajetória de Rawet, de quem foram lançados em 2008 os Ensaios Reunidos (editora Civilização Brasileira, organização de Rosana Kohl Bines e José Leonardo Tonus) e Samuel Rawet: fortuna crítica em jornais e revistas (editora Caetés, organização de Francisco Venceslau dos Santos). O livro da Caetés foi selecionado pelo Programa Petrobras Cultural na área de Preservação e Memória, que difunde conteúdos e acervos de interesse da memória das artes no Brasil.

DIVISOR DE ÁGUAS

Ao chegar de Klimontow, Polônia, em julho de 1936, em companhia da mãe, de um irmão e uma irmã, o menino anotado como Szmil Urys no passaporte materno tinha sete anos e só falava idish, língua na qual se alfabetizara. O pai começara no Brasil como clientelchik – vendedor a prestação de porta em porta – e depois teve lojas de móveis; o menino, leitor ávido, cresceu detestando tudo o que se referisse a comércio e a dinheiro.

Rawet estreou em 1950 -- com crônicas, críticas teatrais, editoriais e contos -- na revista O Espelho, do Grêmio Cultural e Recreativo Stefan Zweig, que funcionava no Centro Israelita dos Subúrbios da Leopoldina. As ruas onde a família viveu, em casas pequenas, alugadas, continuam empoeiradas e quentes, com seus nomes sonoros (Lígia, Leonídia, Andorinhas). As residências também continuam ali, mas é outro o perfil demográfico. A sinagoga da rua Juvenal Galeno, em frente à casa de vila onde os Rawet moraram, ainda funciona aos sábados, mantida pelos antigos moradores, em sua maioria filhos de imigrantes do leste europeu.

Se a vida comunitária e o som das rezas marcaram Rawet, também o marcou o estranhamento do universo brasileiro, e o apelido incômodo que deu título a Gringuinho, relato de exclusão que integra Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Editora Objetiva, seleção de Ítalo Moriconi). Gringuinho foi publicado pela primeira vez em Contos do Imigrante, de 1956. Ano que, recorda o romancista Esdras Nascimento, leitor apaixonado de Rawet, foi apontado como um divisor de águas da literatura brasileira por causa da publicação de duas obras: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e de Contos do Imigrante.

Rosa e Rawet, juntos: a comparação não era pouca coisa para um escritor de 26 anos que se formara em Engenharia e cuja língua materna parecia fadada à extinção depois do Holocausto!

Rawet desejava ser brasileiro, mas não um brasileiro aburguesado, convencional, e sim um carioca livre das injunções familiares, dono e senhor de ruas, becos, botequins e sexo pago na Cinelândia. Repudiava a erudição para exaltar uma simplicidade que, de fato, nunca teve. “Sou fundamentalmente suburbano. Eu aprendi português nas ruas, apanhando e falando errado, e acho essa a melhor pedagogia. Eu aprendi tudo na rua” -- disse em entrevista ao escritor Flávio Moreira da Costa, jornal Correio da Manhã, 18/06/1972.

Por algum tempo, foi fiel à Lei do clã. Aluno brilhante, fez carreira bem sucedida como integrante da equipe que construiu Brasília. Foi o principal calculista do Congresso Nacional, tendo participado também de importantes projetos na França e em Israel. Até que um dia largou tudo. Segundo relatou numa entrevista, sua gota d’água existencial foi a visão, no final de uma escadaria da futura capital, de Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Joaquim Cardozo: ele, outsider de ego fraturado, não queria mais caber no quadro de senhores tão contentes consigo mesmos...

Nunca usou seus vastos recursos literários para idealizar o passado. Para ele, o shtetl ancestral já embutia a ingratidão, a perfídia, os males do mundo: “Ah, as neves da minha infância, ah, as doçuras das varadas que levei porque chutei uma bola na rua. Foram contar ao velho barbudo (já então havia delatores), e o homem espumou na sala do prédio da sinagoga...”, recorda, no ensaio Devaneios de um solitário aprendiz da ironia (1970), em que fala da teoria da consciência unificada no mesmo parágrafo em que lembra a humilhação e o gozo de saber-se homossexual.

Proclamou seu rompimento com o mundo judaico que conhecera (e não com o judaísmo em geral, como alguns entenderam erroneamente), ao publicar, em 1977, o ensaio Kafka e a mineralidade judaica ou a tonga da mironga do kabuletê. “Estou farto de pathos, farto de ahhs!, ohhhs!, uhhhs!, arreganhos de dentes, deboches (....)”, escreveu então. Anunciou que não queria mais saber de amigos judeus, comida judaica, negócios imobiliários judaicos...

Deus não existia, Freud era uma fraude, escreveu um dia. O que existia era a escrita vertiginosa, o mergulho sem rede, em tantos pontos similares aos de outros intelectuais atormentados. A imaginação delirante venceu aos poucos a sanidade. Foi um Samuel Rawet solitário que morreu em 1984, em Brasília. Mas não estava inteiramente isolado, pois os amigos escritores se preocupavam com ele e o acolhiam.

Se o poeta beat Allen Ginsberg, seu contemporâneo, homenageou a mãe, morta num hospício, com o Kaddish canônico, foi aos israelenses vivos que Rawet -- igualmente marcado pela doença mental da mãe -- dirigiu seu Kadish – Oração pelos vivos das Olimpíadas de Munique. As flores de retórica, as preces e o pranto são inúteis para os mortos, escreveu então, novamente “jovem”, novamente sionista, eternamente inquieto no difícil espaço entre pertencimentos díspares.

Retratos da Segunda Guerra







Acima, Carlos Scliar, artista plástico que serviu na FEB (Força Expedicionária Brasileira), em inaguração de uma exposição às vésperas do embarque para a Itália, em 1944. E obras da série Cadernos de Guerra, inclusive auto-retrato (1945), nanquim sobre papel.

O cabo de artilharia Carlos Scliar, nascido em 1920 em Santa Maria da Boca do Monte, Rio Grande do Sul, desenhava até em papel de pão tudo o que observava no front italiano [no que seria a série Cadernos de Guerra]. O jovem que se tornaria um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros é um dos personagens do livro Soldados que vieram de longe – os 42 heróis brasileiros judeus da Segunda Guerra Mundial, recém-lançado pelo professor Israel Blajberg, engenheiro e membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.

O olhar sensível de Scliar não se voltou para cenas de batalhas nem gestos heróicos, mas para a gente simples e as paisagens do campo, ou para seus companheiros. Nas palavras do escritor Rubem Braga, então correspondente de guerra, os desenhos eram “evocações sóbrias” que comoveriam, “longe no tempo, os homens que viveram a bela e amarga aventura”.

Dos 42 soldados brasileiros judeus relacionados por Israel Blajberg, 13 ainda estão vivos. Filhos de imigrantes, eles nunca constituíram um grupo, pois a maioria não se conhecia. O livro recolhe deles as histórias que considera importantes. Como a do tenente de artilharia Salli Szajnferber, que participou do mais sangrento combate da FEB, com 574 baixas entre mortos e feridos, e foi o responsável por efetuar a prisão de 200 alemães.

Há casos como a repercussão da convocação dos irmãos Alberto e Moyses Chahon. A mãe deles, Matilde Gammal Chahon, a quem fora concedida a possibilidade de indicar apenas um dos filhos para ir à guerra, anunciou sua decisão, exaltada pela imprensa patriótica da época: “... ou vão os dois ou não vai nenhum ...”

Outra história é a do sargento de infantaria Jacob Perlmann, de Niterói: falando em ídiche a prisioneiros alemães, disse-lhes que poderia atirar neles, mas não o faria. "Se fossem vocês que tivessem me aprisionado, teriam me matado aqui ou num campo de extermínio, pois sou brasileiro e judeu. E é exatamente por ser brasileiro e judeu que não vou fazer isso com vocês".

15.10.08

Oitenta anos de Scholem Aleichem (o colégio, não o escritor!)




[fotos de “delegação” do Scholem Aleichem à Embaixada de Israel, 1958, e do professor Moysés Genes nas Olimpíadas Intercolegiais de 1971, na Hebraica].

Há pessoas cuja marca vai crescendo com o tempo, até se tornar lenda e ponto de inflexão para novas avaliações históricas. Esse é o caso do professor Moysés Genes, que dirigiu o Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem de março de 1948 a julho de 1973. Não que ele, homem modesto, tenha buscado esse tipo de reconhecimento; mas o fato é que seu trabalho intenso, sua paciência e sua obstinação (ou teimosia, diriam os adversários) foram essenciais para um projeto pedagógico judaico laico muito bem sucedido durante décadas. O projeto do Scholem (que existiu também em outras cidades) floresceu com a utopia da construção do socialismo e decaiu em meio à acentuação das divergências no seio da esquerda e à mudança na mentalidade das classes médias judaicas.

Se não tivesse encerrado as atividades em 1995 (com a responsabilidade sobre o patrimônio entregue ao colégio Liessin, que vendeu o prédio da rua Professor Gabizo), o Scholem estaria completando 80 anos. O 80º. aniversário (junto com os 89 anos do professor Genes, como ele é chamado) será celebrado em festa na Hebraica no dia 1º. de novembro. Quem freqüentou o Scholem, meu caso, recorda como ele foi importante para congregar várias centenas de famílias que queriam dar aos filhos uma educação judaica aberta, democrática, baseada em cultura e não em religião. Ali, o levante do gueto de Varsóvia era um momento heróico muito próximo, sempre emocionante. O que não significava, na visão do professor Genes, obedecer, sobretudo depois da Guerra dos Seis Dias, à posição anti-sionista dos primórdios do judaísmo progressista. Isso, e muito mais, é o que ele mostra no alentado livro de memórias que lançou em 2002, O 11º. Mandamento (Editora Espaço e Tempo).

Para quem tem menos de 40 anos, as dezenas de entrevistas que o livro contém, além das reflexões e dos relatos de fatos, comprovam que a história do povo judeu é muito mais complexa do que sugerem os rótulos aprisionadores. O pertencimento cultural e a ética podem incorporar a fé sem colocá-la no centro do universo. Assim, não é contraditório que o professor Genes abra seu texto com os Dez Mandamentos, e acrescente o décimo primeiro, “Dirás sempre a verdade”, que ele criou para nortear a própria vida.

Para quem passou dos 40 anos, e viveu a juventude na Tijuca e arredores, o livro, e a festa que se prepara na Hebraica, são uma tremenda viagem "amarcord"...

Siné de volta (por Leneide Duarte-Plon)


O desenho acima, de Jiho (Jacques Olivier), está no novo e irreverente jornal de Siné. Abaixo, a notícia sobre o sucesso de Siné, postada no excelente blog cultural http://bilhetesdeparis.blogspot.com/, da jornalista brasileira Leneide Duarte-Plon.

Quando Siné foi despedido de “Charlie Hebdo” pelo diretor do jornal, Philippe Val, sob acusação de anti-semitismo, o humorista e caricaturista mais irreverente da imprensa francesa decidiu que não iria calar a boca.

Sentindo-se injustiçado ao ser demitido de “Charlie Hebdo”, Siné abriu um processo contra Val e fundou um jornal tão irreverente e mal-educado quanto o dono. Como carimbo “Siné Hebdo” exibe um garoto levado fazendo caretas dentro de um círculo duplo onde se lê “Le journal mal élevé” (O jornal mal-educado). O número 1 de “Siné Hebdo” saiu dia 10 de setembro com uma capa em que uma caricatura sua faz um gesto obsceno com a mão que mostra um dedo e diz: “Olha eu de novo!”

E como prova de que os quatro números já publicados incomodam, os computadores da redação do jornal foram roubados no domingo, 5 de outubro. Obviamente, nos computadores estavam os textos do número que sai na quarta-feira, 8. Catherine Sinet, que é diretora de redação do jornal, já tinha denunciado à polícia uma série de ameaças recebidas por telefone de uma organização extremista judaica.

Com a saída do número 4 no dia 1° de outubro, o jornal contabiliza um mês de vida e mantém o nível de interesse dos leitores dispostos a apoiar o trabalho de um grupo de cartunistas e jornalistas revoltados com a acusação a Siné, ao qual se juntaram nomes como Michel Onfray e Michel Warschawski. O primeiro é um professor de filosofia, um iconoclasta de carteirinha, que escreveu, entre outros, um “Tratado de ateologia” e cujos livros e DVDs são best-sellers em toda a França difundindo a filosofia entre o maior número possível de leitores. Para isso, ele fundou uma universidade livre, totalmente gratuita, na cidade de Caen, a poucas horas de Paris.

Warschawski é um intelectual israelense, autor de diversos livros sobre o conflito israelo-palestino e defensor incondicional da causa palestina. No seu primeiro artigo para “Siné Hebdo”, o filho do rabino Warschawski diz que em seu artigo semanal não falará jamais do que se convencionou chamar “processo de paz”. “Siné me pediu uma coluna na qual falarei das realidades políticas, sociais e culturais dessa região do planeta na qual vivo, milito e escrevo. Ora, o “processo de paz” é exatamente o contrário de uma realidade: é vento, virtual, alguns diriam que ele é pura propaganda política”, escreve o escritor.

Há três meses, ao ser acusado de anti-semitismo, Siné reagiu energicamente:

"Quanto ao meu suposto anti-semitismo, nunca fui anti-semita, não sou anti-semita, nunca serei anti-semita. Condeno radicalmente os que são anti-semitas, mas não tenho nenhum apreço pelos que, judeus ou não, jogam irresponsavelmente essa palavra abjeta na cara de seus adversários para desconsiderá-los, sabendo que esta acusação é o insulto supremo depois do Holocausto (Shoah). Isso está se tornando insuportável. No que me diz respeito, tenho tanta antipatia por todos os que, judeus ou não, defendem o regime israelense, quanto pelos que defendiam o apartheid na África do Sul. Há mais de 60 anos luto contra todas as formas de racismo e se tivesse tido idade de esconder judeus durante a ocupação o teria feito sem hesitar, como o fiz pelos argelinos durante a guerra da Argélia. Estou do lado de todos os oprimidos!"

O jornal de Siné tem o mesmo formato do outro do qual ele foi expulso. E se continuar a vender e despertar o interesse dos leitores como o primeiro número, vai longe. No editorial do número 2, o cartunista informa que o número 1 foi um sucesso de vendas (151 mil exemplares) e que o fato de terem conseguido fundar o jornal com tão pouco dinheiro era um milagre que deveria continuar a ser apoiado pelos leitores.

No primeiro número, o cartunista se se congratulou com os leitores pela criação do jornal “mal-educado, impertinente, libertário, em cores e barato” (dois euros). Para continuar a viver sem nenhum anúncio publicitário como outro tradicional e respeitado jornal satírico “Le Canard Enchaîné”, “Siné Hebdo” só conta com o apoio de seus leitores. Siné escreveu um pequeno texto pedindo doações para a associação “Les mal-élevés”:

“Não tenhamos ilusão. Temos de contar com o silêncio da mídia. Muitas pessoas nos detestam e vão fazer tudo para nos sabotar”. O texto tem um título provocante: “Pare de beber (provisoriamente) e de fumar (se for possível) e envie o dinheiro economizado pra gente”.

Pedido de doações mais irreverente, impossível.

11.10.08

Judith Malina no Rio: trabalho é oração e louvor


Mito da contra-cultura nos anos 60 e 70, um ícone dos jovens que tinham como slogan o "é proibido proibir", Judith Malina, que junto com o marido Julian Beck criou o Living Theatre, esteve semana passada no Rio de Janeiro, onde recebeu uma medalha do Ministério da Cultura e deu um concorrido workshop para atores e diretores teatrais (organizado pela CAL no Sesc-Copacabana).

Todo o processo foi filmado pela cineasta Adriana Figueiredo, inclusive a emocionada chegada de Judith à sinagoga da ARI, em Botafogo, no final do Iom Kipur. Era uma tarde fria e a sinagoga estava cheia. Extremamente vital, olhos brilhantes e atentos, a miúda Judith, filha de um rabino e de uma ex-atriz que emigraram da Alemanha para os EUA em 1928, continua, aos 82 anos, anarquista, graças a Deus... Escreve tudo o que lhe acontece num caderno/diário (já tem 600 deles, alguns publicados). Jejuou no Iom Kipur, apesar de nao ter interrompido o workshop, pois vê seu trabalho como uma oração e um louvor ao Criador. Atualmente, o Living Theatre está apresentando, num espaço sem cadeiras e com total participação do público, o espetáculo Eureka, concebido sobre obra de Edgar Allan Poe por Hanon Reznikov, o segundo marido de Malina, e continuado por ela quando ele morreu em maio último.

Quando lhe perguntei se a religião não entra em contradição com sua vida radical (ela mantém até hoje todas as propostas do Living Theatre), ela respondeu que não, pois segue o que o coração lhe dita e não as regras fixas do judaismo rabínico. Ao acender as velas na sexta-feira à noite, não o faz porque é obrigatório, diz, mas para honrar a si mesma, aos ancestrais, e sentir-se unida às milhões de mulheres judias que o fazem no mundo inteiro.

Para quem não lembra, Judith e Beck foram expulsos do Brasil em 1971, por decreto do ditador Emilio Garrastazu Médici, depois de ficarem presos dois meses, acusados de prejudicar a ordem pública em Ouro Preto com seu grupo que fazia teatro nas ruas. Os "cabeludos" foram chamados de subversivos (ó palavra subitamente antiquada!) pelas autoridades locais. A medalha de agora não apaga o ocorrido, mas foi recebida com emoção por Judith, que diz gostar muito da criatividade dos brasileiros. Na ocasião da expulsão, ela escreveu o seguinte no seu diário:

“E assim teremos que deixar o Brasil. O julgamento continuará sem nós. O silêncio no Tribunal é pesado. O silêncio sombrio dos advogados está misturado de outros sentimentos. Nosso silêncio é igualmente estranho. Está quase tudo acabado. Deixamos Ouro Preto pela última vez. Nossos amigos, em grande número, reúnem-se em torno do ônibus [...] O ônibus sobe a rua Direita. Com o meu rosto apertado contra a janela do ônibus,as lágrima descem de repente. Eu amo o Brasil. Na Praça Tiradentes tudo está muito calmo. Dois estudantes estão sentados na base do monumento a Tiradentes. Quando nosso ônibus passa, um deles levanta a mão com o punho cerrado.

Quando chegamos ao DOPS, as luzes das câmaras e os flashs nos põem tontos. Repórteres, advogados, mil perguntas: quando? Quais as notícias oficiais? O que há sobre os brasileiros do grupo? Para onde vamos? Quando vamos ser soltos? O que significa ser banido? Poderemos voltar um dia?

Levará tempo antes que tudo fique claro. Agora apenas dizemos isto: estaremos tristes por deixar o Brasil. Queremos voltar".


Veja mais sobre o grupo em http://www.livingtheatre.org/

2.10.08

Paul Newman como herói de Israel



Meses antes da morte de Paul Newman, em 26 de setembro último, aos 83 anos, um dos seus personagens inesquecíveis tinha voltado à tona no mundo judaico: Ari Ben Canaan, que há meio século foi o protagonista do filme Exodus, baseado no livro de Leon Uris, foi muito citado pela mídia de Israel durante a celebração do 60º. aniversário do país, quase como se tivesse sido um herói da vida real.

Bonito, ousado, viril, desafiando os ingleses e derrotando os árabes, conquistando o coração de uma bela mulher enquanto comandava um navio repleto de sobreviventes do nazismo, o irresistível Newman/Ben Canaan parecia um mocinho de filme de faroeste transplantado para o Oriente Médio.

Se o roteiro do filme, e o livro, foram ou não inteiramente fiéis aos fatos, não importa. O que importa é que, em termos de imaginário coletivo, o filme, dirigido por Otto Preminger, se tornou um libelo favorável ao Estado de Israel. Com o livro, ajudou a forjar a percepção do público ocidental em relação à criação de Israel e ao sionismo. Em vez do antigo personagem judeu neurótico e vulnerável, sempre às voltas com perseguições reais e imaginárias, Exodus exibia um guerreiro ético, pronto para morrer em grande estilo por um projeto coletivo.

O fictício Ari Ben Canaan acabou ganhando status de mito fundador e representante de um povo. Numa cena do filme, ele fala dos fornos crematórios e da solidão dos judeus no pós-guerra. “Não temos amigos, só temos a nós mesmos. Lembre-se disso!” – diz a um companheiro da resistência judaica.

Leon Uris contava ter lido centenas de livros de História judaica e israelense antes de escrever seu romance em torno da viagem do Exodus e da luta pela criação de Israel. Publicado em 1958, o livro vendeu mais de 20 milhões de exemplares nos EUA nos anos seguintes e foi traduzido para dezenas de línguas.