21.9.09
Kol Nidrei
Dezenas de gravações, fora do ambiente das sinagogas, podem ser ouvidas no youtube. Clique aqui para ouvir duas das mais antigas, Moishe Oysher sings Kol Nidre - 1939 Yiiddish film e Pablo Casals - Kol Nidrei (1923)
Direitos humanos no Brasil (por Jacksohn Grossman*)
O Museu Judaico convida para a mesa-redonda "Direitos humanos - a questão das diferenças" (em 29 de setembro, a partir das 18 horas, no Atlantic Business Center, avenida Atlântica 1130, térreo), com a participação de Benedita da Silva, secretária de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos; Jorge da Silva, secretário executivo da Coordenadoria Multidisciplinar de Estudos e Pesquisas em Ordem Pública, Polícia e Direitos Humanos; e Abraham Goldstein, presidente da B'nai Brith do Brasil. A mediação será do advogado Jacksohn Grossman, diretor do Departamento Jurídico da Fierj, autor do seguinte artigo sobre o tema:" O Brasil participou ativamente da redação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela ONU em 1947, sendo então representado pelo jornalista Austregésilo de Athayde. Nem por isso a expressão “direitos humanos”, em nosso país, deixou de apresentar diferentes sentidos, conforme distintos contextos e épocas.
Durante os 20 anos de ditadura militar invocavam-se os direitos humanos em defesa dos perseguidos políticos, em defesa da liberdade de expressão e contra a tortura, as prisões ilegais e a legislação autoritária. Nos dias atuais costuma-se empregá-la para denunciar chacinas em favelas e as condições subhumanas de nossas prisões.
Independentemente dos problemas econômicos e sociais, há um outro aspecto, de cunho ideológico, que vai permear todos os estratos sociais, e que diz respeito à visão do Outro, ou seja, daquele que olhamos e pensamos como “diferente”. Gilberto Freyre, tão festejado sociólogo que teria promovido a defesa da miscigenação de brancos com negros, exaltando-a como marco positivo da criação de uma propalada “democracia racial” no Brasil, deixa claro seu antissemitismo, ao se referir aos judeus como “técnicos de usura” e “aves de rapina”.
Com as recentes descobertas científicas e a decifração do genoma humano, desmoralizou-se a idéia de existência de raças superiores ou inferiores, de diferenças entre raças, e até mesmo o próprio conceito de raça. Nada disso, porém, é bastante para alterar o conceito de “judeu” ou de “negro”, que se acha internalizado pela cultura transmitida por gerações.
Exemplo dessa permanência é a forma como é tratado o judeu no noticiário publicado na imprensa. Com efeito, quaisquer notícias, tanto elogiosas, quanto, principalmente, as detratoras, envolvendo algum cidadão judeu, recebe não apenas este qualificativo, mas também, por vezes, o registro de que seria “estrangeiro”. Assim, “fulano de tal, médico judeu radicado nos Estados Unidos, ...”, ou, “comerciante judeu há muitos anos no Brasil, foi ontem assaltado e morto durante violento tiroteio”. O mesmo tratamento não é atribuído aos católicos, protestantes, budistas ou espíritas, quer sejam eslavos, asiáticos ou europeus.
A expressão “isto é coisa de judeu”, “você parece judeu”, ou até mesmo “você não parece judeu”, é ainda bastante utilizada, em todas as classes e níveis de instrução, não apenas de forma pejorativa e preconceituosa, mas também como se o judeu possuísse características próprias e diversas dos demais cidadãos, percebíveis a olho nu ou identificáveis pelo simples modo de ser ou de agir.
O histórico de casos, em nossa experiência de mais de duas décadas no trato das questões jurídicas trazidas ao conhecimento da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, demonstra que a prática do racismo e do antissemitismo vem ocorrendo não apenas de forma persistente, mas em volume cada vez maior. Exemplos notórios são as publicações de obras de nítido caráter nazista, artigos em jornais e revistas, entrevistas nos diversos meios de comunicação, venda de objetos com o símbolo do nazismo, desenhos de suásticas em colégios, universidades, repartições, meios de transporte, bandeiras de torcidas, decoração de restaurantes, etc.
Num curso de pós-graduação aqui no Rio de Janeiro, na cadeira “Alternativas para Produção Científica em Relações Internacionais”, há cerca de um ano e meio, a professora e então diretora do Curso declarou em sala de aula que “Hitler deveria ter matado todos os judeus”. Na internet multiplicam-se os sites nazistas, as comunidades no Orkut, dentre elas “Poder Branco”, “Comunidade Adolf Hitler BR”, com 761 membros, “Comunidade Hitler”, com 486 membros, e “Comunidade Hitler Mein Kampf, com 1009 membros. Há ainda a pregação feita pelos que se autodenominam “revisionistas históricos” no tocante ao Holocausto, sem contar o ódio manifestado em cartas de leitores nos jornais e sites de notícias on line, que, a pretexto de atacar Israel, pretendem na verdade demonstrar que os judeus são poderosos, opressores, amantes da guerra e da violência e dominadores dos meios de comunicação.
Quanto ao judeu, não importa se professa ou não a religião judaica, se é judeu apenas por origem ou porque assim se declara: esses dados não são considerados para vê-lo como um “diferente”, que tem uma marca própria, diversa da maioria, sujeito a um outro olhar."
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* Este artigo é um resumo da palestra do autor na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, no evento “Presença Judaica na Cultura Brasileira”, realizado pela UNIRIO e o Memorial Judaico de Vassouras.
Cinema e política
É possível falar do filme israelense “Lebanon”, ganhador do Leão de Ouro (melhor filme) do Festival de Veneza mesmo antes de vê-lo. Pelo tema e pelas intenções do diretor Samuel Maoz, um dos aspectos que ele coloca em pauta é o vínculo entre arte e política, especialmente intenso em situações extremas e em zonas de guerra.
Maoz, 47 anos, participou da guerra do Líbano em 1982, e contou nunca ter superado o trauma. Afirmou que talvez não tivesse sido premiado (esse foi seu primeiro longa-metragem) se a atriz Jane Fonda estivesse no júri. “O objetivo de um filme como o meu é abrir o diálogo, fazer as pessoas falarem de assuntos importantes”, disse ele ao jornal britânico The Observer. “E isso é algo que não se pode fazer se os filmes forem boicotados. Não faz sentido boicotar a arte”.
Jane Fonda foi uma das signatárias da carta sugerindo o boicote ao Festival Internacional do Filme de Toronto poque este homenageou o centenário de Tel Aviv com uma série de películas sobre a cidade. Agora, duas semanas depois de assinar a carta, ela quase voltou atrás: escreveu uma coluna (no Huffington Post) dizendo que não lera com cuidado o documento e que algumas palavras “desnecessariamente inflamatórias” contra a homenagem a Tel Aviv não haviam saído do fundo do seu coração...
Para manter a polêmica, artistas judeus conhecidos, entre eles Jerry Seinfeld, Sacha Baron Cohen e Natalie Portman, publicaram um anúncio nos jornais Los Angeles Times e Toronto Star, afirmando: “Quem quer que tenha assistido ao cinema israelense recente, com filmes que podem ser políticos e pessoais, cômicos e trágicos, frequentemente críticos, sabe que eles não são, de maneira nenhuma, um braço de propaganda da política do governo.”
O filme de Maoz – que teve financiamentos públicos e privados israelenses – transcorre sob a perspectiva de quatro soldados enclausurados num tanque, de onde miram alvos militares e civis. A primeira missão deles é entrar numa aldeia libanesa para atacar terroristas palestinos, com todos os ônus letais que isso implica para a população civil. Tema de alta voltagem e incômodo, tanto que esse é o terceiro filme israelense recente a focalizar a invasão do Líbano, depois de Beaufort (2007) e de Valsa com Bashir (2008).
O fato de o cineasta ter alegado que “Lebanon” não é um filme político, mas um depoimento exclusivamente pessoal sobre a tragédia da guerra, indica como a palavra “política” esvaziou-se, pois a rejeição dele aos clichês heróicos é uma opção política na acepção ampla do termo (opção, aliás, só viável nas democracias).
Pena que, do outro lado, intelectuais e artistas árabes vivam em eterno silêncio quando se trata de autocríticas ou da manifestação pública de dilemas morais...
7.9.09
Hitler em Bariloche??

Numa sequencia de postagens sobre a Segunda Guerra Mundial e a Argentina, o correspondente do Estado de São Paulo em Buenos Aires, Ariel Palacios aborda, entre outros temas, o neonazismo no país e o sadismo "especial" com que os torturadores trataram os prisioneiros judeus durante a última ditadura militar (1976-1983). Ariel Palacios também fala de livros, inclusive um "guia turístico" que provocou protestos da comunidade judaica. Leiam mais em http://blog.estadao.com.br/blog/arielpalacios . Aqui, parte do post do jornalista:
"Daqui vocês podem ver a Cordilheira dos Andes, o lago Nahuel Huapi...e ali, no meio do bosque, a última residência de Adolf Hitler e Eva Braun. Ali Hitler morreu em 1960”.
A insólita frase pode ser pronunciada ocasionalmente pelos guias aos turistas que visitam a cidade de Bariloche, na Patagônia, no sul da Argentina. Ali, segundo um polêmico livro, teria se refugiado o tenebroso Führer do Terceiro Reich após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.
Hitler, afirma a obra, não deu um tiro na cabeça (junto com uma cápsula de cianureto que mordeu) na Berlim bombardeada pelos soviéticos. Segundo o livro, teria falecido tranquilamente, anos depois, em Bariloche.
A obra é “Bariloche Nazi – Lugares Históricos Relacionados com o Nacional-Socialismo”, do jornalista e escritor Abel Basti. O livro é um peculiar guia turístico para percorrer o “lado nazista” dessa cidade com look bávaro alpino no sopé dos Andes.
Além da fantasiosa última residência de Hitler, o guia mostra com detalhes as casas e os lugares reais onde passeavam e se reuniam dezenas de criminosos de guerra que comprovadamente passaram pelo país.
Esse é o caso de Erich Priebke e Reinhard Koops - que nos anos 40 e 50 se esconderam nessa cidade. Outros nazistas, como Walter Kutschmann, Josef Schwammberger e Abraham Kipp também teriam passado pelo lugar. Na época, Bariloche não passava de um vilarejo afastado da civilização, a 13.500 quilômetros das fumegantes ruínas de Berlim.
Ali se esconderam nazistas alemães e austríacos, bem como croatas “ustaschas”, belgas, fascistas italianos e colaboracionistas franceses.
Calcula-se que no pós-guerra, sob o governo do general Juan Domingo Perón, mais de 1.300 criminosos de guerra passaram pela Argentina, muitos dos quais acabaram residindo no país.
29.8.09
Grotesco contemporâneo no Museu de Arte de Haifa
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A obra acima integra a exposição Wild Exaggeration - The Grotesque Body in Contemporary Art, que abriu em julho e fica até janeiro de 2010 no Museu de Arte de Haifa, um dos melhores de Israel. São 35 artistas, israelenses e de outros países, com suas distintas visões do que é grotesco e cruel. Ela se chama Bitte nicht nach Hause schicken (Por favor, não me mande para casa), de Zoya Cherkassky, nascida em Kiev em 1976, e que hoje vive entre Tel Aviv e Berlim. Abaixo, quadro sem título de Ada Ovadia faz menção às torres gêmeas destruídas em NY. Ada nasceu em 1966 no kibutz Maagan Michael, onde vive até hoje.


Ao lado, fachada do Museu de Arte de Haifa, que pode ser visitado em www.hma.org.il
Embora haja elementos cômicos e até carnavalescos no conjunto das obras, estas nada têm de humor no sentido tradicional. Ao contrário, produzem inquietação, sem o conforto do riso fácil. O que a curadoria ressaltou foi o sentimento do absurdo, a proximidade do ser humano com o trágico, que a qualquer momento pode irromper para desestabilizar o cotidiano - o grotesco não serve para escandalizar, sendo uma alegoria de uma realidade que se caracteriza por excessos e incertezas.
Museu Virtual
O Museu Judaico do Rio de Janeiro será um dos museus brasileiros a participar, com imagens digitais, do Museu Virtual, que está sendo criado pela PUC-RJ, num projeto com o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência e Tecnologia. 
Nos corredores do Museu Virtual, que terá movimento, o visitante vai "caminhar” e interagir com o acervo, informando-se sobre instituições que mostram a diversidade da cultura do país. Acima, vocês podem ver a imagem (estática) do “corredor” onde o poster do Museu Judaico será inserido. Cada vez que um visitante clicar no nosso nome, um texto de apresentação e outras imagens serão apresentadas.
Candelabro "Lindo"

Nessa reta final, o Museu também está próximo de se tornar o proprietário da “Lindo Lamp”, uma hanukiá de prata do século 18, a mais antiga do país, e que foi exibida por empréstimo nos últimos 70 anos. A peça vale 300 mil libras e 250 mil já foram arrecadadas entre fundos públicos e instituições filantrópicas para a compra. Espera-se que as restantes 50 mil libras venham de doadores privados.
Questões genéticas
Existem em Israel listas separadas de doenças genéticas conforme a região dos ancestrais, embora haja patologias comuns. Entre os descendentes de norte-africanos, muitos são portadores do gene que produz a beta-talassemia, um tipo de anemia (originalmente, era um gene vantajoso para o portador, pois dava alguma proteção contra a malária, endêmica no norte da África). Saber disso permite a adoção de medidas paliativas quando surgem doenças que durante muitos anos ficaram sem diagnóstico.
Outros grupos judaicos específicos, que durante séculos viveram intramuros, fechados em termos reprodutivos, são atualmente objeto de interesse médico: o Instituto de Genética Médica do Cedars-Sinai Medical Center de Los Angeles lançou em julho um programa de rastreamento de quatro doenças compartilhadas por judeus iranianos e seus descendentes (o Persian Jewish Genetic Screening Program). A maior parte da comunidade judaica radicada no Irã (e que vivia na Pérsia desde o século 6 a.C.) emigrou após 1948, sobretudo para Israel e EUA.
O mal genético que mais afeta os ashkenazim ainda é a doença de Gaucher, deficiência enzimática que produz sintomas como aumento do fígado, anemia, sangramento nasal e dores ósseas. Segundo o laboratório Genzyme, que produziu a primeira droga para a doença, esta afeta cerca de 10 mil pessoas no mundo. Na população em geral, uma pessoa em cem tem o gene; entre os ashkenazim, o índice é de 1/15 (mas ser portador do gene não é sinônimo de desenvolver a patologia; para transmiti-la é preciso que ambos os genitores possuam o gene, detectável por exame de sangue ou saliva).
21.8.09
O shad’hen
Na década de 1940 ainda havia na comunidade judaica a função de shad’hen (do hebraico shad’han, casamenteiro), embora um pouco diferente da maneira europeia. Lá, era uma profissão, aqui, um “bico” remunerado quando o encontro se concretizava. Em geral, os pais se preocupavam em casar as filhas o mais cedo possível, antes dos 20 anos, senão já seriam consideradas “muito velhas”. Minha mãe não era exceção, só que não se interessava pelos serviços do shad’hen, pois nem ela nem suas irmãs, ao todo seis, haviam tido casamentos arranjados. Em Varsóvia, de onde vieram, a vida para o judeu era mais difícil que no shtetl, mas era um mundo mais aberto.
Eu, mocinha, ainda na escola, vivendo a alegria dos 15 anos, presenciei um dia meu pai chegando do trabalho em estado de grande irritação. Inquirido por minha mãe, contou-lhe que um shad’hen havia tido a audácia de lhe propor para mim um shídor (acordo entre os pais do rapaz e os da moça com vistas ao casamento).
- E o que você respondeu? - minha mãe quis saber, consternada.
- Pedi ao sujeito que se retirasse, pois não tenho mercadoria podre para vender.
- Você tem quatro filhas em casa - alertou minha mãe.
Meu pai lançou-lhe um olhar de pena, e eu, ouvindo o diálogo, fiquei matutando por que razão minha mãe estava tão preocupada com casamento, se nem sequer namorávamos!
Quando me pego às vezes nestas lembranças, acho graça, imagino que peso e valor tinham tais coisas para nossas mães. Com o passar do tempo, fomos nos casando, uma após outra. Minha mãe ainda deu à luz mais uma menina. Só que, então, já tinha adquirido a segurança que lhe permitia dizer:
- Quando sair a última, ainda virão me perguntar se não tenho mais.
17.8.09
Padre Vieira e os judeus (por Arnaldo Niskier*)

[ O acadêmico e professor Arnaldo Niskier, autor do artigo abaixo, faz conferência no Museu Judaico quarta-feira, 19 de agosto, 18 horas, acerca de suas pesquisas, que resultaram em livro, sobre a relação do padre Antonio Vieira, figura emblemática da cultura luso-brasileira, com os judeus ]
A Companhia de Jesus era fortemente influenciada pela chamada “gente de nação”, o que levou Vieira a uma grande identificação com o Velho Testamento e à defesa candente dos cristãos-novos, perseguidos pelo Santo Ofício e a Ordem Dominicana. Acabaria, ele mesmo, sendo vítima da Inquisição. Foi pesquisado se tinha sangue impuro, “pois só um judeu defenderia tão ardorosamente outros judeus.” Nada encontraram, era mesmo idealismo do pregador messiânico, que, chegando à condição de confidente de D. João IV, sugeriu-lhe retomar Pernambuco dos holandeses, mas não pela guerra, e sim por uma compra com o dinheiro emprestado pelos judeus, desde que lhes fosse permitida a livre entrada no país.
É dessa época a construção da primeira sinagoga brasileira – Kahal Zur Israel (Rochedo de Israel), que começou a ser pensada em 1630, com a chegada dos primeiros israelitas oriundos da Holanda a Recife. Eles queriam uma sinagoga e uma escola, da mesma forma que o padre José de Anchieta, um século antes, falava em construir uma escola ao lado de cada igreja. São semelhanças que devem ser lembradas.
Em 1642 pregou Vieira pela primeira vez em Lisboa. Havia necessidade de obter recursos financeiros para a aquisição de navios e armamentos, além da contratação de mercenários, como era costume na época. Sugeriu ao monarca a cooperação dos judeus – cristãos-novos ou não – lançando o opúsculo Razões apontadas a el-rei D. João IV a favor dos cristãos-novos para se lhes haver de perdoar a confiscação de seus bens, que entrarem no comércio deste reino.
Pode-se compreender o alcance da sugestão pelo que afirma Mendes dos Remédios, no seu clássico Os Judeus em Portugal: “Defesa pronta, desassombrada, eloqüente, vigorosa, linguagem forte, lógica incisiva e fulminante. Esse escrito estalou como um trovão ... O que não devia causar menos espanto, apreensão e temores era o saber-se que o paladino dos cristãos-novos e autor daquela Proposta era um jesuíta, homem então na pujança da vida e do talento, bem aceito na corte, adorado nos meios aristocráticos e devotos da capital, intimorato, eloqüente, generoso, e cujo saber e habilidade não conheciam limites – o padre Antônio Vieira.”
Os inimigos eram os castelhanos e os holandeses, estes já instalados no Nordeste brasileiro, especialmente em Pernambuco. O pragmatismo de Vieira pode ser medido por essa afirmação: “Favorecer aos homens de nação ou admiti-los neste Reino, na forma que se propõe, não é contra lei alguma, divina ou humana, antes é muito conforme aos sagrados cânones... O judaísmo não passa de homens da mesma nação.”
Quando Portugal retomou a região, com o reforço da frota de 36 galeões armados, Recife ficou em mãos da Companhia do Comércio, tornada viável pela inteligência e coragem de Vieira, com a ajuda de cidadãos hebreus de Lisboa, Hamburgo e Amsterdam.
Ron Arad sem disciplina em NY


Hoje um ícone, a Cadeira Rover foi criada em 1981 pelo artista israelense Ron Arad a partir de um assento de couro do carro britânico Rover V82L. A partir da cadeira, misto de obra de arte e mobília sofisticada, começou a fama de Arad, que ganhou agora uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Nova York, sob o título “No Discipline” –“Sem Disciplina”, motto sintetizador de um dos mais influentes designers do mundo, alguém que vem trafegando entre as várias formas de arte e a arquitetura.

Nascido em Tel Aviv em 1951, Arad vive na Inglaterra desde os anos 1970. É professor do London Royal College of Art e ajudou a fixar o conceito da importância da experimentação com proporções, técnicas e suportes. Suas obras estão em distintos lugares do mundo – escultura em Jerusalém, hotéis na Áustria e na Espanha, sala de jantar da mansão de um sheik no Qatar, frasco de perfume para Kenzo. Na exposição em NY, um dos trabalhos que mais produz impacto é Lolita, candelabro de cristal desenhado para Swarovski. O nome é referência à primeira frase do livro de Vladimir Nabokov (1955), “Lolita, light of my life, fire of my loins”.
Mein Kampf deve ser publicada com anotações?
O professor David Bankier, diretor do Instituto Internacional de Pesquisa do Holocausto do Yad Vashem, também concorda com a edição acadêmica, segundo entrevista ao jornal israelense Haaretz. Outro que concorda é Ian Kershaw, historiador britânico e biógrafo de Hitler, para o qual a divulgação via Internet vem abalando o conceito de censura. A primeira edição do livro foi publicada em 1925. Alguns países – como Alemanha, Áustria e Holanda – proíbem sua publicação, mas outros, inclusive Estados Unidos, a permitem.
Mein Kampf chegou a ser vendido através da Amazon, mas protestos do Centro Simon Wiesenthal obrigaram a empresa a retirar a oferta da rede. Em Israel, a obra pode ser encontrada em algumas bibliotecas de universidades.
Idish: idioma em ascensão?

Língua em extinção? Língua dos oprimidos dos guetos europeus? Durante as décadas seguintes à Segunda Guerra, parecia que ninguém jamais voltaria a ler livros em idish ou a traduzir autores seculares da literatura idish. Mas não foi o que aconteceu – graças a gente como o norte-americano Aaron Lansky, que conta em Outwitting History – the amazing adventures of a man who rescued a million yiiddish books (Algonquin Books) como ele e sua equipe, a princípio minúscula, salvaram da destruição um milhão e meio de livros em idish e fundaram o hoje importante National Yiidish Book Center (sediado em Amherst, Massachussetts, http://www.yiddishbookcenter.org/).
No Brasil também há gente preocupada com o idioma, caso de Genni Blank – que traduziu e reorganizou a obra Ídiche, Uma Introdução ao Idioma, Literatura e Cultura - Aprendizado Sem Mestre, de Sheva Zucker, cujo segundo volume acaba de ser lançado, com 506 páginas e dois CDS incluídos.

Os livros são um método de auto-aprendizagem: ouve-se a pronúncia do idioma e conferem-se as respostas dos exercícios e das interpretações dos textos. O volume II contém novas lições, provérbios e expressões idiomáticas, anedotas, trechos de autores famosos como Isac Bashevis Singer e Sholem Aleichem, tabela para conjugação de mais de 500 verbos e glossário. As canções vêm no original, com tradução, transliteração e partituras. Há ainda um capítulo sobre o Holocausto, com trechos da última carta de Mordechai Anilevitch antes da aniquilação do Gueto de Varsóvia.
[Aquisição via blankge@yahoo.com.br ou Sinagoga de Copacabana, telefone 2255-0191. O preço é R$85,00. O Volume I está sendo vendido a R$ 90,00]
[o dicionário Aurélio grafa ídiche, mas outras fontes ficam com idish, transliteração clássica, daí as duas grafias que aparecem aqui]
RELATO DE LANSKY
Para Lansky – que começou sua missão-resgate aos 23 anos, em 1980 – a literatura idish representa uma parte fundamental da história cultural ashkenazi. É engraçado e comovente seu relato de algumas das centenas de visitas feitas por ele e dois ou três colegas, dirigindo caminhões alugados, a idosos em seus pequenos apartamentos em Nova York e Nova Jersey, ou a bibliotecas comunitárias e galpões de editoras fechadas, onde riquezas literárias jaziam cobertas de poeira e mofo. Pelos idosos, era sempre recebido com lautas refeições; em suas cozinhas compreendeu a inutilidade de recusar-se a provar mais um bocadinho de arenque ou de torta de maçã e abriu os ouvidos para nostálgicos relatos que os filhos não queriam mais ouvir.
A missão de Lansky também o levou ao Canadá, a Cuba, à União Soviética antes da queda do Muro de Berlim, e a fazer centenas de palestras nos EUA, pedindo apoio e recursos, que custaram a chegar. No começo, as doações eram pequenas; com o tempo, grandes patrocinadores (como a Fundação Spielberg) aderiram à causa. Mais tarde, seu Centro passou também a fornecer livros: a comunidade judaica lituana, por exemplo, os usou para formar clubes do livro em idish, devidamente animados por velhos professores que haviam “esquecido” o idioma durante o período soviético.
Nos anos 1990, os livros já eram recolhidos também em mansões ajardinadas nos subúrbios afluentes dos EUA, onde ninguém mais oferecia comida à equipe e netos adolescentes espantavam-se por seus avós, que lhes pareciam iletrados devido ao sotaque carregado, terem um dia lido “tudo aquilo” guardado no porão. Como o trabalho de coleta era fisicamente pesado (a equipe não contava com empregados) e como a “herança” literária pouco significaria se não pudesse ser apreciada pelas gerações seguintes, Lansky passou a oferecer estágios a jovens e a criar um novo e atraente tipo de informação cultural.
“As vezes o idish parecia um teste de Rorschach: os jovens, especialmente, viam nele o que queriam ver. Para os ateus, era o judaísmo sem religião; para as feministas, o judaísmo livre de patriarcado; para os desconfortáveis com a política israelense, o nacionalismo sem sionismo; para os socialistas, a voz da luta proletária; para os radicais mais contemporâneos, um shtoch no establishment ”.
O trabalho do Centro mostra que o idish foi muito além dos escritores mais conhecidos. Foi o idioma de uma vasta produção revolucionária (socialista e bolchevique) no início do século XX e de uma rica bibliografia histórica, política e sociológica, que aos poucos começa a ser traduzida para o inglês. É Lansky quem dá um exemplo:
“Numa noite quente de verão me trouxeram um tomo enorme intitulado Leksikon fun politishe um fremdverter (Dicionário de Terminologia Política e Estrangeira), organizado por Dor-Ber Slutski, publicado em Kiev em 1929. Com quase 1.100 páginas, era o sonho de qualquer estudioso: um dicionário mostrando exatamente como os judeus percebiam o mundo ao seu redor num momento de grandes mudanças sociais e políticas”.
Lansky acabou descobrindo que toda a edição fora recolhida pela polícia soviética. Nenhuma cópia havia sobrado. Ao tomar conhecimento disso, seu coração disparou: afinal, uma cópia havia sobrado, sim, e estava com ele!
“Escondi o livro, tranquei a porta, liguei o alarme contra assaltos....Como a obra sobrevivera, e como chegara ao Centro? Colocamos um anúncio no Pakn Treger, nossa revista em inglês, pedindo informações. Dois dias depois, recebi um telefonema de uma mulher de Long Island. O livro, informou ela, pertencera ao pai, que em 1929 fora à União Soviética, onde vivia seu primo Slutski. Ambos estavam numa gráfica de Kiev quando as primeiras cópias saíram da impressora, e o primo deu-lhe uma de presente...Ele a trouxe consigo para Nova York e a guardou em sua biblioteca pessoal até morrer. A filha então enviou-a ao Centro, onde nossos estagiários a descobriram dentro de um despretensioso pacote de livros em idish”.
2.8.09
Presenças e ausências no Itamaraty

A relevância de palavras e de imagens sobre corações e mentes, especialmente no tocante a situações que mexem com o imaginário étnico-religioso, os direitos humanos e o sofrimento de civis, consolidou-se com o fecho perfeito para o Seminário: a apresentação de duas pequenas versões do premiado e comovente documentário Ponto de Encontro, co-dirigido pela brasileira Julia Bacha e por Ronit Avni. Estiveram no Rio dois de seus protagonistas, a israelense Robi Damelin e o palestino Ali Abu Awwad, ambos membros do Círculo de Pais – Fórum das Famílias, grupo que reúne cerca de 500 famílias enlutadas dos dois lados.
O documentário mostra como cidadãos comuns se levantam das cinzas da dor mais profunda para buscar vias de reconciliação em vez de ceder aos clamores por vingança (David, filho de Robi, fo morto por um franco-atirador palestino; o irmão mais velho de Awwad foi morto por um israelense)e às palavras de ordem políticas. Ela, que um dia emigrou da África do Sul para Israel, percorre, sempre com um parceiro palestino, comunidades e escolas do seu país e dos teritórios ocupados, e também viaja pelo mundo, pregando a necessidade de mediação e paz (veja mais em http://www.justvision.org/)

No mais, não houve (nem se esperava) consenso. A ausência do prefeito de Gaza, à última hora impedido de viajar ao Rio, foi lamentada pelos israelenses, que tinham planejado discutir com ele vários pontos de projetos sanitários já prontos e com recursos alocados. Os projetos não foram implantados devido ao boicote do Hamas, informou o prefeito de Ashkelon – e esse tipo de informação dividiu a platéia, microcosmo da polarização que o tema Israel-Palestina produz.
A maioria dos judeus presentes vibrou quando Yacov Achmer, do Canal 1 da TV israelense e especialista em assuntos internacionais, criticou as exigências palestinas, alegando que elas mudam à medida que Israel faz concessões. Depois de perguntar que Palestina a OLP queria libertar antes de 1967, ironizou a suposta neutralidade jornalística, declarando-se, nessa ordem, judeu, israelense e jornalista.
Já a esquerda e os árabes aplaudiram Gideon Levy, colunista do jornal israelense Haaretz, para o qual nenhuma negociação irá adiante sem a retirada de Israel dos assentamentos e o fim de políticas humilhantes (como os postos de controle). Levy afirmou que a ocupação não teria se mantido sem a colaboração da mídia de seu país, “que está inteiramente a serviço do governo”.
Diante do argumento de que a mídia israelense é ideologicamente plural, divulgando todo tipo de avanço comportamental e escândalo governamental (inclusive escapadas sexuais de ministros), Levy apontou que quando se trata de segurança nacional e de árabes ela torna-se caudatária das posições oficiais e reforça percepções. Deu um exemplo recente: numa mesma edição um grande jornal divulgou com destaque, e foto na primeira página, a história da morte do cachorro de estimação de um soldado israelense e jogou para a página 14 a morte de palestinos numa incursão militar de Israel.
É claro que nenhum palestino morador de Gaza faria, sob risco de represálias, esse tipo de autocrítica impiedosa! Foi com palavras cautelosas, pois, que alguns participantes garantiram que sua mídia não pertence ao Hamas, não quer o Hamas... mas convive com o Hamas. Portanto, nada de discutir censura: eles e elas ressaltaram a questão dos refugiados e de Jerusalém, reclamaram da existência de 11 mil prisioneiros palestinos em Israel e protestaram contra sua falta de liberdade de movimentos e o estrangulamento econômico de sua população civil.
Na contextualização reside um dos nós da informação sobre o Oriente Médio. Como explicar certas peculiaridades da região ao público, sobretudo na América Latina? Como discutir fotografias de crianças mortas por bombas? Andrew Whitley, diretor do escritório da UNRWA (Relief Works Agency for Palestinians) levantou questões como essa. Para ele, a mídia deveria olhar mais “sob a superfície” ao reportar o conflito, já que a reiteração de estereótipos não serve ao interesse de ninguém e deslegitima o outro. Daí a importância de todas as pontes, mesmo pequenas, como as que esse Seminário estabeleceu entre interlocutores tão variados (israelenses, árabes, brasileiros, argentinos, egípcios, norte-americanos).
31.7.09
O língua-solta

A história do primeiro poeta do Brasil, o cristão-novo Bento Teixeira, morto pela Inquisição, é o tema da peça O Língua Solta, de Miriam Halfim, direção de Xando Graça. Autor de Prosopopéia e crítico contundente dos desmandos das autoridades de Pernambuco no século XVI, Bento é interpretado pelo ator Isaac Bernat.
A peça fica até 10 de setembro no Teatro do Centro Cultural Justiça Federal (Av. Rio Banco, 241 / Cinelândia). Sempre às quartas e quintas-feiras às 19 horas (R$20,00 e R$10,00, meia entrada).
Educado por jesuítas, famoso pela erudição e pela língua afiada, Bento Teixeira foi também o primeiro mestre-escola leigo da colônia. Aqui, Miriam fala sobre o que a atraiu no personagem.
P: Por que a figura de Bento Teixeira fascinou você? Sua imersão na trajetória dele foi histórica, visceral, psíquica?
Miriam: Em primeiro lugar, porque Pernambuco e seus cristãos-novos são o começo do país. Depois, pelo orgulho de saber da contribuição de um cristão-novo para a literatura do Brasil. Enquanto muitos participam para pilhar a colônia, Bento Teixeira acrescenta-lhe glória - quer louvar Pernambuco. Ainda que seja controvertido o valor literário da Prosopopéia, é indiscutível ser ele o primeiro autor do Brasil.
Gosto de pensar que meu interesse primevo é histórico, mas é claro que me interesso pelos judeus (cristãos-novos) em geral e profundamente, pois o judaísmo é uma religião forte e fundada em humanismo. A razão de tanta perseguição vale mil estudos psicológicos. Meu interesse, então, abrange todos os aspectos que você mencionou.
P: Por que Bento Teixeira merece ser conhecido pelo público brasileiro neste início de século XXI?
Miriam: Porque um povo que não se educa está fadado a se perder. Educar um povo é fazê-lo conhecer sua história. Bento Teixeira é parte da história dos judeus e do Brasil. Muitos países já entraram no Terceiro Milênio. Outros seguem na Idade Média. O Brasil pretende galgar espaço entre os mais evoluídos, É, pois, mais do que tempo de expor Bento Teixeira ao público, inclusive o das escolas.
P: A Inquisição no Brasil ainda tem aspectos não suficientemente pesquisados, que possam suscitar interesse?
Miriam: A Inquisição é como as Cruzadas. Uma nuvem paira sobre ambas, porque incomoda e envolve a Igreja de Roma. Mas já começam a aparecer sinais de uma e das outras. É importante saber o que aconteceu no passado. Um erro só tem função se evita sua repetição. Em todas as áreas, desde a política até a religiosa e educacional.
P: Bento causou incômodo num contexto de total censura. Ele tinha algum tipo de apoio, uma rede de proteção que lhe permitia expressar-se? Fazia suas críticas dentro do sistema vigente ou era um revolucionário?
Miriam: Bento Teixeira era um língua-solta. Amava Pernambuco e Olinda e falava de tudo que via de errado. Como poeta e sonhador, talvez não tivesse noção do perigo, especialmente após algum tempo nas tavernas, envolvido pelo vinho de Espanha que apreciava. Não creio em apoio ou rede formal por trás dele. Não esqueçamos que as reuniões nos engenhos-sinagogas eram secretas - ou quase. Houve maior liberdade durante o período holandês, mas antes não, e depois de 1654, com a partida dos flamengos, os cristãos-novos também sumiram, em grande parte, de Pernambuco.
O preconceito e a perseguição só podem ser derrotados e mudar uma situação negativa vigente através da educação em seu sentido maior.
Um filósofo contra o monopólio da verdade

O filósofo argentino Dario Sztajnszrajber, professor do Seminário Rabínico de Buenos Aires, é o organizador do recém-lançado livro Posjudaismo 2 ( http://www.prometeolibros.com/), edição de uma série de encontros em que pensadores (inclusive o brasileiro Bernardo Sorj) analisam a realidade do judaísmo em seu país, expondo dilemas que não necessariamente levam a respostas imediatas.
O pós-judaísmo, diz Darío, é também um convite ao debate, às indagações: o que nos dizem os Dez Mandamentos aqui e agora, na Argentina (e no mundo) do século XXI? – é uma dessas indagações. Quem tem o poder de dizer quem é judeu? -- é outra. Subjacentes às perguntas estão o respeito à diversidade e a oposição à exclusividade do saber que certos grupos judaicos clamam ter.
Ainda que o livro não trate especialmente de antissemitismo, enviei ao filósofo uma pergunta sobre o assunto, em razão da manifestação violenta (com alguns feridos) contra o ato público da comunidade judaica e da Embaixada de Israel em homenagem às vítimas do atentado da AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), em Buenos Aires, que completou 15 anos em julho. Dario não pensa que o antissemitismo seja atualmente um risco maior na Argentina, pois a sociedade está atenta. O que existe lá, diz, são grupos minúsculos mas estridentes, de postura discriminatória, que transferem à comunidade judaica sua oposição à política do governo israelense e tendem a reiterar a eterna “incorreção” dos judeus.
Ademais, acrescenta, a atenção da mídia alenta a tendência a exigir dos judeus uma conduta exemplar. “Creio que o maior antissemitismo está colocado nessa exigência. A Israel se exige o que não se exige a nenhum outro país”.
Ma, afinal, em que lado do espectro ideológico estão esses grupos? (na manifestação violenta de julho, a maioria dos manifestantes parecia ser do Quebracho, grupo de programa bastante confuso mas idenficado com de extrema-esquerda por um tipo de discurso genérico anti-EUA, anti-Israel, pró-Chavez).
Diz Darío:
“A confusão ideológica, acredito, mostra a crise tanto do discurso das esquerdas como dos discursos das instituições judaicas centrais. A esquerda tornou-se uma denominação esvaziada de ideologia, pois alberga posturas que vão desde o fascismo até o trotsquismo, ou desde a defesa das minorias até o apoio a regimes teocráticos. A isso se soma a crise da prática política dos movimentos de esquerda, que não conseguiram ressignificar-se para que as lutas humanistas e contra as desigualdades tenham novas formas de chegar às pessoas.
Hoje, ser de esquerda deveria consistir numa luta militante contra todo tipo de discriminação, qualquer que seja o país. O grande setor excluído atualmente são os grandes movimentos de ilegais, cuja situação em qualquer sociedade emerge de um mundo socialmente injusto (...)Mas a resposta das instituições judaicas centrais frente a isso é colocar toda a esquerda sob o mesmo teto e acusar “a” esquerda de ser judeofóbica. Acho que não é um erro, mas uma política, pois há muitas posições no interior da comunidade que legitimam um modelo excludente. O que deve ficar claro é que não há uma ideologia judaica única, monopólica, verdadeira, sobre nenhum tema!”
Atentado impune e outros apontamentos
O atentado – o mais letal contra uma comunidade judaica desde a Segunda Guerra – foi um choque não só para os judeus, apesar do alvo ter sido a sede de várias de suas instituições culturais e sociais, inclusive a entidade-mãe Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), além de uma das maiores bibliotecas em hebraico da América Latina e uma das maiores do mundo com obras em ídish (parcialmente recuperadas dos escombros, nas semanas seguintes, por voluntários). A explosão ocorreu apenas dois anos depois que outra, também impune até hoje, deixou 22 mortos na embaixada de Israel em Buenos Aires.
Ambos os atentados foram desde então atribuídos por distintos governos argentinos a um inalcançável “terrorismo internacional” (regimes iraniano e/ou sírio, Hezbolá); as conexões locais continuaram a salvo, apesar dos protestos de familiares de vítimas e da mídia. Ainda que os ataques tivessem mais relações com a ação de máfias criminosas e disputas entre complexas redes de interesses internacionais do que com a persistência do antissemitismo, a comunidade judaica argentina ficou mais preocupada depois deles e passou a adotar extremas medidas de segurança em todas as suas instituições.
A explosão na embaixada, em 17 de março de 1992, ocorreu num horário em que toda a segurança se ausentara do local. Mas o então ministro do Interior José Luis Manzano apressou-se a informar que fora causada por um arsenal guardado dentro da própria representação diplomática, acrescentando que havia indícios da existência de um plano israelense para colonizar o sul do país. Ele não estava sendo original: para ficar num exemplo, em 1971 um conhecido professor de Direito denunciara o “Plan Andinia”, suposta conspiração judaica mundial para apoderar-se da...Patagônia!
O imaginário em torno da conspiração judaica e o antissemitismo na Argentina foram influenciados diretamente pelo nazismo e o fascismo europeus, e foram apoiados por grupos da direita católica. Organizações como a Liga Patriótica e a Aliança Libertadora Nacionalista e dezenas de publicações conclamavam à “resistência” contra os judeus, ora apontados como sugadores das riquezas nacionais ora como fomentadores do comunismo. O governo militar que assumiu o poder em 1943 restabeleceu a educação religiosa (católica) nas escolas públicas, pondo fim ao laicismo estabelecido em 1884. Em 1948, Evita acusou os antissemitas de serem “representantes nefastos da oligarquia”, mas o discurso nada significou na prática: Perón já abrira as portas, ao final da Segunda Guerra, a centenas de criminosos de guerra nazistas.
A partir da década de 1960, grupos como Tacuara e Guarda Restauradora Nacionalista atuaram livremente tanto nos períodos de democracia quanto na ditadura. Houve dezenas de ataques contra judeus nos anos seguintes. Uma jovem judia foi morta sob a “acusação” de ter ajudado o Mossad no sequestro de Adolf Eichman. Em agosto de 1960, membros da Tacuara atiraram num adolescente judeu. Um editorial do semanário Mundo Israelita queixou-se então: “A polícia nunca os encontra, nunca os pune. Sabe quem são, quem os comanda, onde estão. Eles não escondem suas intenções, mas ninguém os incomoda (...)”.
Se nos pequenos detalhes encontram-se sinais reveladores, um deles foi o fato de que nos anúncios fúnebres nos jornais argentinos, a estrela de Davi só pôde ser exibida depois de 1986, quando se revogou uma disposição oficial que a proibia.
Em 1998, quando um Congresso Neonazista reuniu-se no Colégio Lasalle, a comunidade judaica se reduzira a 300 mil pessoas, 80% delas na capital e arredores. Era uma fase de crise profunda e descrédito das instituições judaicas. Entre outros problemas, milhões de dólares de indenizações às famílias de vítimas da AMIA chegaram a sumir em meio às operações dos “bancos comunitários” (Patrícios, Mayo, Banco Israelita de Córdoba, Banco Israelita de Rosário), cuja quebra entre 1998 e 1999 levou o presidente da DAIA a processar por antissemitismo o presidente do Banco Central, Pedro Pou.
Àquela altura, 30% dos judeus de classe média tinham perdido renda e se tornado neo-pobres (conforme estudo sociodemográfico patrocinado pelo American Jewish Joint Distribution Commitee, publicado em 2005, citado por Ricardo Feierstein em Historia de los judíos argentinos, editora Galerna, 2006). Hoje, a situação econômica voltou a melhorar e muitos emigrantes que foram para Israel já voltaram ao país. Mas as feridas dos últimos anos estão longe de ter cicatrizado...
Drusos à direita? (por Ronaldo Wrobel *)

Um dos dados mais curiosos da política israelense foi a eleição de Hamad Amer para o Knesset. Advogado, 43 anos, pai de três filhos, Amer pertence à minoria drusa que vive no Norte de Israel. Até aí, nenhuma novidade: outros árabes já se elegeram para o parlamento. A maior surpresa vem do fato de Amer ter se filiado não aos partidos de centro-esquerda, de tendência humanista, e sim ao ultra-nacionalista Israel Beiteinu (Israel é o nosso lar). Avigdor Lieberman, o presidente do partido, tem usado a eleição de Amer como pretexto para calar aqueles que o tacham de racista e fascista, declarando-se favorável a quaisquer minorias que aceitem o Estado judeu como tal e optem por meios pacíficos para externar suas opiniões.
Entre 20% e 50% dos drusos, dependendo da região, votaram em partidos de extrema-direita para o Knesset. Este fenômeno inclui desde os vilarejos nas colinas do Golan, ocupadas por Israel em 1967, até a comunidade de Monte Carmel, perto de Haifa.
Desde 1948, os drusos prestam serviço militar e ocupam cargos de alta patente no Estado judeu. Em 60 anos, cerca de 200 soldados drusos morreram defendendo Israel. Hoje são cerca de 120 mil cidadãos, o que perfaz 1,6% da população israelense. É um povo discreto, sem ambições nacionalistas nem a pretensão de converter o mundo ao seu credo, inspirado em valores como o apego à paz e à tolerância. São contra o proselitismo e desfrutam a amizade dos conterrâneos judeus. A comunidade de Monte Carmel, por exemplo, é bastante visitada por judeus de Haifa que vão às compras nos fins-de-semana. Outras comunidades, no interior, vivem da agricultura e mantêm suas tradições livremente. Mesma sorte não têm os drusos da Síria e do Líbano, na mira do fundamentalismo islâmico.
É claro que os drusos têm suas queixas e reivindicações, como qualquer eleitor. Alguns vilarejos beiram a pobreza, outros precisam de escolas e hospitais. Vários drusos vão trabalhar nas grandes cidades para sustentar a família, outros ingressam no serviço público. O certo é que, em todas as comunidades drusas, o apego ao Estado de Israel é notório ou até ousado. Os moradores do Golan, por exemplo, vivem às voltas com o risco de se verem devolvidos à Síria. Embora não possam dizê-lo abertamente, é uma perspectiva sombria para quem aprendeu a votar, a contar com excelentes serviços públicos, a exercer sua fé e sua cultura sem medo.
Hamad Amer não é a única minoria nas hostes de Avigdor Lieberman. Ao seu lado está Anastassia Michaeli, a primeira judia convertida a integrar o Knesset. Os dois parecem desafiar a lógica de um partido que, dentre outros radicalismos, propõe que as pessoas insatisfeitas em Israel - leia-se, os árabes israelenses - sejam pagas para deixar o país e renunciar à sua cidadania. Uma idéia afrontosa, logicamente. Espera-se que Amer e Michaeli tragam bons fluidos para o Israel Beiteinu, acenando com seus exemplos e mostrando que a democracia, embora longe da perfeição, ainda é capaz de surpreender os incrédulos.
* Ronaldo Wrobel é escritor e advogado


